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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O sexto dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O sexto dia…

Amanhã é Natal!

Chegamos à terceira cidade do nosso roteiro, a segunda das Missões. A região surge nos séculos XVII num espaço bem delimitado pelo tratado de Tordesilhas, divididas entre Portugal e Espanha. Nesta região, mais de 100 mil homens e mulheres Guaranis viveram naquilo que se convencionou chamar de redução, ou seja, vilarejos. Uma experiência que duraria pouco mais de um século, de vida comunitária, sem propriedade e baseada no cooperativismo.

Hoje saímos um pouco mais tarde do que de costume, choveu forte a noite toda e entre a localidade de 21 de Abril e São Nicolau, eram apenas 18 km de distância. Véspera de Natal, uma sensação interessante e muito diferente de outros anos. Pela primeira vez, não estava embalado pela carga emocional e hedonista desta época, também não tinha visto nenhum enfeite de natal espalhado pelas ruas e nem estava vendo a agitação das pessoas em busca de alguma coisa de última hora.

Pra ser sincero, a única árvore com enfeites que vimos, foi na casa do seu Ivo nosso anfitrião. Também não faz muito sentido pensar sobre este assunto no meio do mato e com chuva.

Havia ao menos uma coisa toda naquele dia, que nos fez olhar tudo com tranqüilidade, o desafios de encarar a chuva, o barro e o frio com bom humor. Os girassóis fazendo caretas eram inusitados. Num lugar também inusitado, logo após atravessarmos o rio Piratini numa balsa, do outro lado era Passo dos Crentes, uma comunidade “evangélica”, no meio do nada. Chamou atenção a quantidade de igrejas protestantes. Uma coisa boba, mas boa de rir, era lembrar a data do dia seguinte e o fato de estarmos os três andando, de olho no céu, esperando uma trégua das chuvas. Mas como estávamos seguindo um caminho, parecíamos os três Reis Magos. Indo, sei lá pra onde.

Dia 24 de dezembro…
E o nosso destino era São Nicolau, tudo a ver, a terra do Papai Noel.

O trecho seria tranqüilo não fosse o barro escorregadio e pesado sobre os calçados.
Quanto mais andávamos, mais nos aproximávamos de casas e do trafego de veículos, um sinal importante, estávamos pela primeira vez, em seis dias de caminhada, próximos de uma cidade “grande”. Faltavam apenas alguns quilômetros para encontrarmos o asfalto. Estávamos próximo de conhecer umas das cidades missioneiras em que restavam ruínas dos Sete Povos das Missões.

Caminhamos durante uns 30 minutos num trecho muito complicado com muito barro, logo depois uma incrível subida por onde trafegavam vários automóveis e dali avistamos o asfalto e a cidade. Quanto mais perto da cidade, mais perto da estupidez do homem urbano.

O carro tem este poder, de deixar o homem mais estúpido, mesmo estando ele no fim do mundo. Um Jeepeiro, do tipo “agroboy”, resolveu tirar onda com a nossa cara. Acelerou na subida, derrapou e o resto você imagina. Lama pra tudo quanto é lado. A minha jaqueta verde ficou vermelha de terra molhada, minha bermuda suja de barro e minha cara, bom fiquei com cara de palhaço. Cheguei ao asfalto e detestei. Os pés doíam, estava com o tornozelo inchado, com uma bota inadequada e o calçamento era de pedras.

Acabou com o que restava dos meus pés.

Mas o mais engraçado ainda estava por vir. Cumprimentamos algumas pessoas numa das primeiras casas da rua, dois casais e uma criança tomando chimarrão. Perguntaram de onde vínhamos? Meus amigos seguiram e aproveitei pra descansar um pouco. Depois de algumas palavras aqui e outras ali, uma mulher me pergunta com toda simplicidade do mundo. O senhor tem problema mental? Afinal, é incompreensível mesmo entender as razões das pessoas que resolvem andar por ai sem uma finalidade utilitária. Talvez esteja ai o sentido das coisas. Fazer algo apenas por prazer e diversão.

A boa notícia era que finalmente estaríamos numa cidade grande. Logo, teríamos opções. Não foi bem assim, cheguei morto de fome e fui direto para o restaurante. Não sei se me deixariam entrar num estabelecimento de Floripa, São Paulo e Rio, com aquela aparência. Sujo de barro, molhado de chuva e com cara de débil mental. Mas fui muito bem recebido! Depois, seguimos para o hotel. Depois de muitos dias abrigados em casas, finalmente um hotel.

Chegamos ao Tio Patinhas.
Cheguei à recepção e não tive dúvida, fiz logo o anúncio: eu sou o Huguinho, ele o Zézinho e o outro você leitor deve se lembrar, eu não, sempre esqueço. Depois de banho tomado, deitado na cama, tive a infeliz ideia de fazer uma pergunta. Vamos comer onde? Meu amigo Renato, pega o mapa de navegação e lê a última linha do nosso roteiro. Lá estava sentenciado! Na noite de Natal, o jantar é livre.

Agora você imagina o meu desespero.
Naquela noite eu tinha que me virar pra arrumar comida. O cara andou 18 kms com o mapa na mão e não tinha se tocado deste irrelevante detalhe. Muito bem, andei quase toda cidade pra chegar ao bendito hotel, todo comércio da cidade estava fechando ou fechado. Aonde buscar comida naquele horário? Sai correndo, encontrei uma confeitaria aberta, apenas entregando as encomendas. Sorte que tinha um pedaço de bolo, o último e um café de coador. Foi a minha redenção.

Mais tarde chega um grupo ao hotel, que seguiria viagem com a gente no dia seguinte.
Eles trouxeram duas coisas importantes: um ceia de Natal e uma “bota velha” que me ajudaria chegar ao final desta aventura. Graças à ajuda da Estelamaris (que ofereceu uma bota) e do Romaldo (dono da bota, de muita utilidade) consegui manter o cronograma.

A diferença deste dia em relação aos dias anteriores, é que nesta fase nossa viagem segue o roteiro dos sítios arqueológicos da rota das Missões no lado brasileiro.

O que vemos nas fotos, de pé, é o que restou das reduções, vestígios apenas. A queda da experiência missioneira se dá com o embate entre os povos Guaranis e as cortes européias, por volta de 1768. O que se vê é parte da nossa história, patrimônio artístico e cultural deste povo que é também nosso. O desenvolvimento destas reduções se deve entre outras coisas ao cultivo da erva-mate e ao rebanho de bovinos na região vindas da outra margem do rio.

A “erva-mate”, durante um período do Brasil, muito mais na região sul do Brasil, recebeu o mesmo título que o café teve na região sudeste, o “ouro-verde”.

As fotos mostram e dão a dimensão do que foi está primeira redução missioneira no interior do Rio Grande do sul. Uma cidade onde viviam mais de 7 mil índios. São Nicolau, fundada por volta de 1626, localizada próximo ao rio Uruguai, pelo Padre Jesuíta Roque Gonzales, segundo reza, foi morto por índios que não aceitavam a “evangelização”.

É interessante pensar na grandeza destas cidades.

Havia neste sítio como nos demais também, toda uma arquitetura bastante diferente do modelo português que conhecemos Brasil a fora, de certa forma, bastante parecido com outras regiões da América espanhola. Faz todo sentido, porque este território pertenceu ao reino de Espanha. Eram cidades erguidas por homens habilidosos, que o homem branco simplesmente destruiu. As cidades missioneiras tinham entre outras coisas igrejas, escolas para as crianças, pátios, cemitérios, praças, casas, quintas e uma espécie de Câmara Municipal.

Muito do que sobrou desta memória é o que você enxerga aqui.

Outra coisa importante é perceber a maneira como nos apropriamos daquilo que é público ou que não pertence à nossa cultura vigente. É uma tradição de herança portuguesa. Destruímos para construir em seguida algo novo, nem sempre melhor. O casarão em ruínas da foto abaixo, de um coronel da região, foi erguido com pedras retiradas da antiga cidade. Note que é a nossa tradição política, pegamos, destruímos e não deixamos nada no lugar com um único objetivo, tornar o que é público, privado. Bastante semelhante com os dias atuais.

Se você quiser saber mais sobre o caminho acesse: http://caminhodasmissoes.com.br/

Por Marcelo Ferraro/ editor floripacool.com

Estréia Coluna Informativo Sul – ROTA AÉREA DE SAINT EXUPERY

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A Prefeitura de Toulouse, na França, juntamente com o programa do Patrimônio Mundial da Unesco está traçando a rota das cidades que a Aeropostal fazia no início do século passado como correio aéreo.

Esta linha iniciava-se em Toulouse, continuava na Espanha, passava pelo norte da África até chegar ao Brasil. Pela América do Sul o roteiro ainda incluía o Uruguai, Argentina e finalizava no Chile. FLORIANÓPOLIS, era ponto importantíssimo nessa rota.

Por isso o Prefeito da Capital recebeu convite para o encontro de criação da Rede das Cidades Aeropostal que acontecerá em Toulouse no inicio do próximo mês. Dário Berger designou a Superintendente Adjunta da Fundação Franklin Cascaes, Roseli Pereira, para representá-lo no evento.


Nos 3 dias de debates serão estabelecidos as bases de um diálogo intercultural, durável e solidário. As despesas da viagem serão custeadas pela Prefeitura de Toulouse.

Por Informativo Sul/Sérgio Aspar
Parceria Floripa Cool/Informativo Sul

Um olhar sobre a realidade através do filme… Análise Critica do Filme!

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Um olhar sobre a realidade através do filme… Análise Critica do Filme!

1. Por que um Projeto de Sociologia e Cinema?

A sociologia é a disciplina da modernidade do capital que surgiu com capitalismo industrial. A sociologia crítica é a ciência social capaz de apreender as múltiplas determinações do ser social capitalista inscritas na narrativa fílmica. Com certeza, existem muitos projetos pedagógicos que buscam utilizar, como mero recurso ilustrativo, o filme para discutir temas das disciplinas de história, psicologia, filosofia, educação e direito. Entretanto, o Projeto Tela Crítica busca ir além do uso do filme apenas como mero recurso ilustrativo de temas sociológicos. Aliás, visa ir além do próprio objeto em si da investigação sociológica. Na verdade, trata o filme como pre-texto para a reflexão critico-sociológica no sentido amplo da palavra “sociologia”, capaz de propiciar, um campo de experiencia critica voltado para o conhecimento verdadeiro da totalidade social. O Projeto Tela Crítica busca “dialogar” com elementos sociológicos sugeridos pelo filme. Ora, o filme reflete (e representa) uma totalidade social concreta, compondo um conjunto complexo de sugestões temáticas que podem ser apropriadas para uma reflexão critico-sociológica. Mesmo um drama psicológico ou um filme de terror, por exemplo, possuem, em última instância, elementos significativos que refletem (ou representam) determinadas traços da vida social concreta. Enfim, o Projeto Tela CRítica exige, de cada um de nós, imaginação sociológica. É através da análise critica do filme que podemos nos apropriar de sugestões temáticas e desenvolver determinadas refelxões histórico-sociológicas. Não compete ao filme explicar. O filme apenas sugere. É a teoria sociológica critica (e dialética) que é capaz de, a partir das “sugestões” do filme, contribuir para o conhecimento social. Entretanto, a teoria critica apenas nos sugere o ponto de partida. O itinerário de reflexão critica é o percurso essencial, inclusive desvelando novas determinações do objeto social. Não podemos meramente “aplicar” a teoria critica ao filme. A idéia é discutir a sociedade a partir do filme, mais do que discutir o filme a partir da sociologia.

2. Com o Projeto Tela Crítica, o sociólogo torna-se crítico de cinema?

O Projeto Tela Crítica não é um projeto de sociologia do cinema, mas sim de sociologia e cinema. Para nós, o filme é apenas um pré-texto para uma reflexão critica, totalizante e totalizadora, sobre a sociedade burguesa. É claro que, ao utilizarmos o filme no processo pedagógico, somos obrigados a passar pela instância do meio filmíco, isto é, a forma filmica e sua dimensão estética, mediação ineliminável da Sétima Arte. Entretanto, nossa proposta é irmos além da Tela, desenvolvendo discussões sociológicas a partir de eixos temáticos sugeridos pelo filme; desvelando, através da análise critico-dialética, categorias sociais e elementos reflexivos não necessariamente postos conscientemente pelo diretor ou roteirista do filme. Enfim, a verdadeira obra de arte é superior (no sentido de ir além) ao próprio criador, tanto no sentido ontológico, isto é, não existe a mera identidade sujeito-objeto, quanto no sentido epistemológico, ou seja, é capaz de propiciar sugestões heuristicas para além da intencionalidade do próprio criador. Todo filme possui uma dimensão estético-formal, que é objeto da teoria do cinema propriamente dita, e uma dimensão político-sociológica, que contém, implicitamente, traços e pistas essenciais compositivos da sociabilidade burguesa. Todo filme é, deste modo, tanto reflexo sociológico, quanto representação ideológica do mundo burguês. É claro que o reflexo sociológico pode estar mistificado, invertido ou obliterado pela representação ideológica. Por isso torna-se necessário a análise crítica. Por isso, chama-se Tela Crítica: quer dizer, ir além da Tela. O que significa que a análise crítica é também uma análise de desconstrução racional do objeto filmico, apreendendo e desenvolvendo de forma lógico-categorial suas sugestões temáticas. O operador da metodologia Tela Crítica precisa conhecer, se possível, as teorias do cinema, enfim, buscar dominar os meandros da Sétima Arte, isto é, conhecer a morfologia estética, a psicologia e a sociologia do cinema. Isto é, conhecer os elementos da forma do filme. Isto ajuda a aprimorar a análise critica do objeto filmico. Ou seja, dominar o meio é importante. Deste modo, a análise critica do filme pressupõe um momento de critica do cinema. Mas, é preciso ir além, senão ficaremos tão-somente na análise da forma do filme. Na verdade, temos a obrigação de desenvolver a problemática social sugerida pelo filme (uma totalidade social concreta com suas múltiplas instâncias sociais). É importante apreender os eixos temáticos (eixo temático principal e subtemas vinculados) e tratá-los a partir da teoria social crítica, mobilizando, deste modo, a sociologia, antropologia, psicologia, história e economia. É a teoria critica e seus elementos categoriais que contribuem para desenvolver e explicar, num primeiro momento, os elementos sugeridos pelo filme. Como a proposta do Projeto Tela Crítica é a análise social crítica, o melhor referencial teórico-analítico ou principio explicativo do mundo burguês é o marxismo dialético, aberto para as contribuições das ciencias sociais e dos clássicos sociológicos (Émile Durkheim e Max Weber, por exemplo) e da psicanálise (a psicanálise é a ciência crítica da subjetividade burguesa, apesar do viés biologicista ou psicologista do freudismo). Enfim, quanto mais ilustrado, no sentido cultural, e aberto, no sentido epistemológico, isto é, capaz de apreender as mais diversas contribuições da teoria social do século XIX e do século XX – psicologia/psicanálise, antropologia, história, filosofia, etc, mais o operador do Tela Crítica será capaz de apreender a riqueza dos elementos da totalidade social concreta pressupostas nos filmes.

3. Todos os filmes contribuem para a Tela Crítica?

Nem todos os filmes têm o mesmo valor heurístico. Num primeiro momento, é importante utilizar filmes clássicos, filmes de grandes diretores e de mestres-artesãos do cinema mundial. A grande Arte, a verdadeira arte realista, é pródiga. O cinema viveu tempos áureos no século XX, com sua capacidade de explicitar, de forma magistral, os nexos problemáticas da modernidade tardia do capital. Os clássicos do século XX foram W. Griffith, Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Lloyd, Frank Capra, Fritz Lang, William Wyler, John Huston, Stanley Kubrick, Federico Fellini, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Vittorio De Sica, Roberto Rosselini, Ingmar Bergman, Eisenstein, Tarkovski, Jean-Luc Godard, Michelangelo Antonioni e muitos outros. É com os filmes clássicos e seus legitimos herdeiros estéticos contemporâneos que podemos tirar o melhor do Projeto Tela Crítica. Assiste-se hoje muito pouco aos clássicos do cinema e se esquece que a magia do cinema deve muito àqueles que conseguiram aprimorar a Sétima Arte no século XX. Quando dizemos aprimorar o cinema, dizemos não apenas aprimorar a capacidade técnica-formal, insuperável em nosso dias com os magistrais efeitos especiais, mas principalmente a capacidade estético-critica, que tende hoje a se degradar, tendo em vista roteiros banais e a lógica de mercado hegemônica que rebaixa as narrativas ao gosto comum das massas e à sua capacidade obtusa de entendimento. Entretanto, o Projeto Tela Crítica se utiliza muito dos filmes contemporâneos, capazes de explicitar temas sociológicos que tenham compromissos com a arte realista (o que implica o realismo em todas suas variantes estéticas, não desprezando, é claro, os generos ficção-científica ou o genero horror). Apesar dos clássicos serem indispensáveis e necessários, eles não são suficientes. Todo filme realista pode ser objeto de analise fílmica. Além disso, mesmo do “lixo” da indústria cultural é possível tirar sugestões criticas interessantes, capazes de desvelar, desfetichizar/desmitificar a lógica do sistema do capital e a sociabilidade do mundo burguês, pois é isso que interessa explicitar. Finalmente, uma das funções do Tela Crítica é criar uma nova sensibilidade estética, uma cultura filmica comprometida com os valores humanistas e com a consciencia critica do mundo burguês.

4. Por que o compromisso do Tela Crítica com a Critica Social?

Apenas a análise crítico-dialética é capaz de vislumbrar as determinações essenciais da totalidade social concreta, apreendendo a riqueza múltipla das sugestões heuristicas propiciadas pela narrativa fílmica, com seus detalhes interessantes sobre a sociabilidade burguesa. A dialética é a ciência da vida, nos disse Hegel. A arte imita a vida. Enfim, o cinema é a maior expressão (reflexo/representação) da vida moderna. Só uma análise dialética, materialista e histórica, comprometida com a crítica social, é capaz de vislumbrar a riqueza das múltiplas determinações que compõem a narrativa filmica da grande obra. O positivismo é infértil e medíocre. É incapaz de imaginação sociológica. Ele não consegue ir além da estrutura narrativa dada e cultiva meras ilações formalistas. É incapaz de apreender as contradições objetivas da estrutura social e seus reflexos dialéticos na trama artistica. É incapaz de tratar da totalidade concreta e da dialética entre a parte e o todo, individuo e sociedade, passado e presente. Enfim, a crítica social que está imbuída do compromisso prático-material com a “negação da negação”, é capaz de ver e apreender as contradições do real social e histórico e seus reflexos estéticos, tendo em vista que são elas, as contradições do todo social burguês, que nos permitem vislumbrar o para além do que é dado – pelo menos enquanto utopia (e possibilidade) concreta.

5. Como o Projeto Tela Crítica se diferencia de outrs projetos pedagógicos que utilizam o filme?

O filme tem sido utilizado como elemento de reflexão pedagógica em várias áreas de estudo acadêmico: historia, psicologia, psicanálise, filosofia, direito, etc. Na área de história e na área de educação existe uma larga reflexão sobre a utilização do filme em sala de aula ou do filme como objeto de pesquisa em educação. Na verdade, na área de educação o que existe não é propriamente análise de filme, mas investigação sobre o vínculo educação e cinema. É quase uma sociologia educacional do filme. O educador, ao elaborar a análise do filme, é obrigado a recorrer ao instrumental heurístico da sociologia, psicologia/psicanálise, antropologia ou historia. O mesmo ocorre com professores de direito, por exemplo, que utilizam o filme para uma reflexão sobre a prática jurídica. A análise do filme é um meio de reflexão sobre a prática profissional (no caso dos educadores, utiliza-se o filme nesse sentido – meio de reflexão da prática pedagógica). Inclusive, até professores de quimica têm utilizado o filme em sala de aula para tratar de contéudos da disciplina. Enfim, a segmentação das práticas pedagógicas que utilizam o filme é bastante interessante, pois demonstra ser o filme, a verdadeira “linguagem” universal. Entretanto, o filme utilizado por tais disciplinas não possui propriamente caráter heurístico. Ele não incita a investigação científica propriamente dita, mas apenas contribui para a validação (ou não) de determinados contéudos disciplinares ou práticas profissionais. O filme é utilizado como mera ilustração. A análise do filme não é um exercicio reflexivo em si, mobilizando categoriais de análise e principios explicativos. Para o Tela Crítica, o filme é uma totalidade social concreta in vitro, mediada, é claro, pelos elementos da representação ideológica que a constitui. É claro que, muitas vezes, o filme é objeto de investigação em si e não meio para uma reflexão disciplinar sobre o mundo sócio-histórico. É o que ocorre, por exemplo, com a sociologia do cinema. Entretanto, o Projeto Tela Crítica utiliza o filme de forma diferenciada. Ele é um projeto pedagógico no sentido latu do termo. Ele busca agir sobre (e com a) subjetividade das pessoas através da análise do filme. Busca dar vida ao conceito através da arte, antropomorfizando o que a ciência social desantropomorfizou. O filme incita (e excita) a reflexão critica.

6. Como o Projeto Tela Crítica trata as abordagens divergentes na análise de filmes?

É claro que existem múltiplas leituras de uma narrativa filmica. O que não quer dizer que todas as abordagens (ou análises) de filme tenham o mesmo valor heurístico, no sentido de apreender as determinações essenciais do todo concreto da obra filmica. Existem boas e más interpretações de filme. Algumas se detém nos elementos contingentes e não conseguem apreender os nexos essenciais sugeridos. Uma boa análise de filme possui coerência lógica interna, devendo sempre se basear em fatos narrativos e não em mera suposição subjetiva de quem analiza. Às vezes, um detalhe é importante, mas não é o essencial. O que não quer dizer que devemos desprezar os detalhes da narrativa. O que devemos é apreender os nexos essenciais da estrutura narrativa e seus temas significativos, capazes de serem desenvolvidos pela análise crítica. A melhor teoria explicativa do filme é aquela que consegue dar mais significados heuristicos ao maior número de elementos narrativos do filme.

7. Existe uma Metodologia de Análise de Filmes do Projeto Tela Crítica?

É possível discriminar os seguintes passos para uma análise crítica do filme: (1) assistir o filme, de preferência em cópias de ótima qualidade de imagem e som, buscando preservar os principais elementos da forma filmica. Não podemos nos esquecer que cinema é imagem e som em movimento. É importante garantir tela grande e ótima qualidade de exibição, elementos capazes de envolver, no plano subjetivo, o público. O primeiro impacto emocional do filme é decisivo. O filme que consegue mobilizar a inteligencia emocional do público é aquele capaz de contribuir para o projeto do cinema como experiencia crítica. A exibição é o primeiro momento da catarse analítico-critica, que é a proposta do projeto pedagógico Tela Crítica; (2) apreender a estrutura narrativa e seus elementos primários e secundários. É importante desconstruir a narrativa filmica, com seus múltiplos personagens e situações-chaves. O rigor analítico e a precisão de detalhes é decisiva; (3) discriminar o eixo temático principal e os temas significativos primários e secundários sugeridos pelo filme, ou seja, seus eixos temáticos principais e de segunda ordem. É a partir daí que podemos refletir, de forma crítica, sobre o filme. E finalmente, a análise do filme a partir deste desenvolvimento teórico-categorial. E mais: o desenvolvimento categorial para além do filme, remetendo a outros filmes do gênero. Podemos, deste modo, discriminar um movimento de ida: a análise teórico-categorial se apropria do filme. Mas o verdadeiro desafio é provocar o movimento de volta: a obra filmica contribuindo para o desenvolvimento teórico-categorial. O que exige estudo do objeto sociológico sugerido pelo filme e o desenvolvimento de seu conteúdo. É o momento da síntese conceitual.

8. Onde utilizar a Metodologia de Analise de Filme Tela Critica?

Pode ser utilizada em escolas de ensino médio e ensino superior com a devida adaptação, pois deve-se levar em consideração o grau cognitivo do público-receptor. Além disso, é um instrumento precioso nas atividades de formação política e social (em geral, sindicatos e partidos têm desprezado o uso do filme na pedagogia politica). A análise do filme pressupõe sujeitos de recepção ativos e dispostos a uma experiência crítica. Não é meramente “colar” a ideologia no filme, mas utilizar a obra de arte para desenvolver uma consciência crítica. Deste modo, o Projeto Tela Crítica é incompatível com a análise dogmático-sectária. Algumas vezes, a utilização do filme como mera ilustração de conteúdo dado em sala de aula possui certo viés dogmático. O Projeto Tela Critica se propõe a fazer o caminho inverso da indústria cultural que quer tão-somente entreter o público – o importante é fazê-los sentir e refletir.

9. Como deve atuar o operador da Metodologia Tela Crítica?

O operador do Tela Crítica deve atuar como facilitador ou mediador da prática reflexiva, procurando evitar a dispersão que é comum numa análise de filme. O operador deve instigar o estudo prévio dos elementos teórico-analíticos e seu arcabouço teórico-categorial. Análise de filme é dificil, pois além do dominio criativo da teoria sociológica explicativa, exige imaginação sociológica. Não basta a teoria, é preciso, muitas vezes, ir além dela, re-criando-a. O maior perigo da análise do filme é o subjetivismo. Deve-se “cruzar” as interpretações e buscar, no interior da estrutura narrativa, seu sentido imanente. É de fundamental importância a capacitação teórico-analitica do operador da metodologia Tela Crítica. Aliás, sem a capacitação teórico-analítica não existe análise critica. Como destacamos no ensaio “A hermenêutica do filme”, o papel do sujeito-receptor é deveras importante. É ele que apreende os significados imanentes da obra filmica. Mas a apreensão critica exige um público qualificado. Um operador Tela Crítica deve saber utilizar o meio narrativo para educar o público sobre o significado concreta de categorias da dialética social. Uma categoria social é uma forma de ser, isto é, uma determinação da existência. Esta é a função pedagógica do Projeto Tela Crítica. Parafraseando Picasso poderíamos dizer que o filme é uma mentira, mas uma mentira que nos ensina a verdade. Mas para isso precisamos estar abertos à apreender a verdade sociológica através da análise dialética. É interessante o confronto de análises de filme, pois é através deste confronto analítico que a dialética materialista demonstra sua superioridade heurística em relação às demais abordagens sociológica ou psicológica.

Por Tela Crítica.