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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O décimo primeiro dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O décimo primeiro dia…

É o dia do despertar da civilização, da constatação de que grandes monumentos foram erguidos nos mais longínquos dos sertões brasileiros. E tentar entender os propósitos religiosos e governamentais de outras épocas.

O magnífico sino, não toca mais, mas diante dele fiquei imaginando o “marcar” do tempo na redução, anunciando a alvorada, a missa, o meio do dia e o final da tarde de trabalho, os estudos etc. Imaginei através dele, gentes cruzando de um lado a outro o pátio enorme, onde havia os casarios, jardins, ruas, escolas etc. Em pensar que o sol marcou o tempo durante milênios, o sino o tempo das cidades, o apito o tempo das fábricas, o relógio o tempo da das pessoas e a pressa o tempo de todo mundo. Caminhando, não há porque marcar o tempo e ter pressa. Mas estamos condicionados.

Diante destes ornamentos todos nas colunas de pedra, tentei visualizar as mãos calejadas pelo esforço de entalhar uma cidade e ao mesmo tempo a sensibilidade de cada artesão envolvido para esculpir blocos inteiros e dar sentido figurativo a eles. Parece pequeno olhar a obra feita, ainda mais do ponto de vista contemporâneo, onde tudo tem formas prontas, retas ou não, onde o relevo injetado barateia o custo da produção de algo que é sempre caro ao consumidor. Esteiras rodando trazendo e levando peças e componentes, onde tudo é injetado, calculado e o homem vez ou outra, descartado por sistemas cada vez mais mecanizados.

Deveria ser grande pensar nas habilidades desenvolvidas aqui nestas cidades, no talento das gentes e sobre tudo no esforço humano de construir grandes monumentos a partir do uso das mãos, da técnica e da ferramenta. Hoje o trabalho do artesão, do operário, de qualquer um que faça coisas, parece ser insignificante diante do poder da propaganda e da sociedade de massa. Hoje é tudo plástico, tudo vira fumaça em pouco tempo. O diferencial consiste em ter mais memória, ser mais potente e ser mais caro que o modelo básico. O melhor é o bom vinho, um bom bife, um ótimo restaurante. Tudo é mensurado a partir de um único padrão, “padrão bom”, que não inclui a simplicidade e os grandes feitos.

Hoje é outro dia, como todos os dias nas Missões, o caminho te espera.

O sol surge imponente e o caminhar é bastante penoso. Ele é cheio de pedregulhos entre vales e montanhas e dificulta e muito o caminhar exigindo do caminhante mais esforço. Em alguns momentos a pressa de chegar e o desconforto de sentir o corpo pedindo trégua, a sede aumentando e a água cada vez mais quente começam a atarantar a cabeça. Tudo parece infinitamente maior do que é. A próxima sombra é o objetivo maior, o próximo passo, a próxima parada e assim por diante.

São Miguel é lembrança, vai ficando pelo caminho como todos os outros locais pelos quais passamos nos últimos dias. Pelo trajeto fomos adicionando pessoas, gente daqui e dali e de todas as partes. A cada chegada uma prosa boa que faz com que centenas de informações que você recebe no dia a dia da metrópole, não têm utilidade prática neste fim de mundo. Quando dei por mim, nada do que eu supunha saber fazia a diferença. Todo o conhecimento adquirido e acumulado, não me fazia melhor ou pior que qualquer outra pessoa que cruzasse pelo caminho nestes dias. Naquele momento, a força, a resistência, a observação e a paciência eram as ferramentas mais importantes que um homem sábio poderia carregar consigo.

A vida no campo exige este conhecimento.
Um conhecimento que na cidade grande desconhecemos.

Neste dia adotei duas estratégias, vim bem lento no início e caminhei mais rápido logo que percebi a dificuldade do caminho e a temperatura aumentando. Lá pelas tantas, bem mais próximo do ponto indicado para o almoço, percebi que as pessoas que estavam na minha frente haviam sumido do meu campo de visão. No mapa, havia uma indicação clara que logo após um pontilhão deveríamos cruzar a esquerda e seguir no meio da plantação. Fiquei na dúvida, estava sozinho e não conseguia esclarecer com certeza que caminho tomar. Decidi seguir a esquerda, embora não tivesse uma sinalização clara e ou uma indicação do local, de lá observei a dupla da frente seguindo pelo caminho errado.

Comecei a gritar na tentativa que alguém me ouvisse. Por sorte!! Eles me viram. Esperei para registrar o momento e seguimos juntos, em meio à plantação de soja e milho verdinhos. A mágica é simples, basta olhar o tamanho da geringonça que goteja água dia e noite sobre a terra. A sinalização de um caminho é muito importante; na primeira semana, havia algumas boas dicas e outras bastante complicadas de decidir. Talvez fosse o caso do Brasil, dos municípios em que há peregrinação, um esforço maior para manter os locais bem identificados. O que aumenta consideravelmente a boa impressão daqueles que estão praticando o esporte. Os mapas que nos auxiliam, também mereceriam um detalhamento um pouco melhor, nem todo mundo costuma andar auxiliado por Guias condutores.

Claro que nestes treze dias, percebemos o esforço do pessoal do caminho para manter o projeto e o trajeto em perfeitas condições, mas acho que deveria haver mais empenho das cidades em melhorar a recepção e cuidar mais da sinalização. Tenho certeza que muitas pessoas depois de acompanhar algumas histórias terão curiosidade de conhecer os locais. Recomendo que o façam e que tenham essa experiência e valorizem este patrimônio da humanidade que são as Missões. E que o projeto se estenda para as regiões no lado Argentino e Paraguaio. Em breve, devo conhecê-los também.

Uma parada para o descanso, almoço, aquele cochilo gostoso, uma visita à produção de cereais na propriedade e linha novamente. Desta vez, sai acompanhado do amigo Giordani. Seguimos falando de nossas histórias pessoais, falando da vida, dos pais, dos filhos… das coisas boas e dos aprendizados que a vida adulta nos obriga todos os dias.

Trinta kms depois Carajazinho.

Para saber mais sobre o Caminho das Missões.

Por Marcelo Ferraro/editor floripacool.com

Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O décimo dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O décimo dia…

O grande dia, o encontro com uma imagem que guardo na memória desde 1979.

Depois de 10 dias de caminhada e quase 300 km percorridos, estamos quase lá. De início minha vontade era fazer algo diferente no final do ano, por algum motivo, Eu e Renato Lima, conversávamos sobre as Missões, o meu desejo de conhecer a região e o desejo dele de caminhar. O cara percorreu sozinho o caminho de Santiago, saindo de uma cidade próxima a Lisboa e depois percorreu o caminho da Fé, entre São Paulo e Minas. Agora queria o sul do Brasil. Nem de longe esse era o meu objetivo. Mas o cara encontrou um caminho e pior me convenceu a entrar nesta aventura. No fim da história, quero agradecer ao meu amigo de mais de 20 anos pelo feito. Curto andar, subir montanhas, entrar de cabeça no mundo natural, mas confesso, dessa vez foi demais. Fui longe demais.

O texto é o mesmo, o sol nem bem nasceu e nós já estamos prontos para mais um dia de jornada funcionando quase no automático todos os dias. Você abre os olhos, fica de pé, vai ao banheiro, toma o café reforçado e volta para estrada. Anda alguns quilômetros e começa a se perguntar quanto tempo já andou, quanto tempo falta e segue enfrente. Usei uma estratégia simples, colocava o chapéu, óculos escuros, abaixava a cabeça e seguia a maior parte do tempo deste modo. Isso sem pensar, vez ou outra, a monotonia era quebrada por uma paisagem bela ou não.

Pelo caminho se vê o poder da roça contemporânea, bem diferente daquele tipo que a gente cultiva no imaginário coletivo. Como me disse Terezinha Nitahara, parece uma cena de Avatar. Tão assustadoramente gigantes, que parecem funcionar sozinhas, e a realidade é essa, algumas funcionam sem ninguém mesmo, noite e dia. Em algumas propriedades, elas são teleguiadas.

Minha companheira de caminhada neste trecho foi Terezinha Melo.

A mulher é valente, não cansa e não desanima, anda elegantemente com sua sombrinha de fazer inveja pelos campos missioneiros. Seguiu também um cão filhote, simpático. Ele foi seguindo adiante e acompanhado de perto por uma cadela de caça. Confesso que não gostei da companhia deles, dos dois cães, acho bonitos de olhar e um saco pra criar. Essa é a minha opinião, tem quem goste e tudo bem. O fato é que o tempo foi passando e eles ali acompanhando passo a passo. Lá pelas tantas, o pequeno se meteu entre minhas pernas, nem ele e nem eu andávamos mais.

A cadela, mais esperta pressentiu o perigo à frente e tratou de resolver o problema ela mesma. Mais a frente havia uma propriedade, com outros cães mais valentes e corajosos, logo começaram a latir e demonstrar sua “força”. Ela foi em direção a eles, latindo forte e os colocou pra correr, como geralmente acontece, até que entrassem para casa, enquanto isso nós avançávamos e o pequenino já dava sinais de que se sentia mais corajoso pra sair das minhas pernas. Logo vencemos o caminho, olhei e a cadela estava de guarda, lá embaixo. Não tardou muito e estava em nossa companhia novamente, foi uma cena e tanto. Comecei a gostar destes bichos babões, que costumam fazer suas necessidades nas ruas e a latir alto quando tento dormir.

Pouco tempo depois, fomos abordados por um motoqueiro, que estava em busca dos cães. Ele havia recebido um telefonema, dizendo que os dois estavam de novo entre os peregrinos. Parece que é um hábito do pequeno. Ele, percebendo a intenção do motoqueiro, tentou fugir. Foi colocado numa cesta e fugiu novamente, até que o dono conseguiu convencê-los de que o melhor a fazer seria voltar pra casa de moto. Foram embora e não sabemos mais nada sobre eles. Até passei a admirar a coragem do bichinho, mas já passou, e pelo que entendi, ele segue junto e depois não sabe voltar sozinho, por isso a cadela o acompanha sempre. Legal, né! Pensando bem, tem sempre alguém no teu caminho pra ter dar aquela força, seja você quem for.

O asfalto surge em nosso caminho e já avistamos a imponente igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões. Esperei tanto por este dia, que mesmo enxergando de longe, já dava sinais de ansiedade. Paramos para o almoço, alguns metros antes de ficar frente a frente com ela. Pedi uma dose de uísque e relaxei, queria chegar lá relaxado para contemplar.

Talvez, este colosso de a exata dimensão do que tenha sido essa região há uns 300 anos atrás. A quantidade de gentes circulando pelos caminhos que percorremos, refizemos entre uma redução a outra. Em pensar que por decreto e acordos palacianos, decidiu-se por acabar com tudo, dizimar essa gente. Quando se entra neste local, há imediatamente uma sensação de paz, uma paz que você só encontra em solo sagrado, onde o silêncio é sepulcral. Essa foi a minha sensação, estava num local, onde tudo, cada pedra do lugar deveria ser respeitada.

Lembrei-me de uma música do Skank, As noites.

“As ruas desse lugar
Conhecem bem…
As casas desse lugar
Se lembrarão…
As pedras municipais
Se impregnaram”

São Miguel foi fundada em 1687, no mesmo ano que São Luiz Gonzaga. A igreja foi erguida com ajuda de 100 homens, entre 1735 e 1745. Na verdade a cidade teve dois momentos fundadores.

Para mais detalhes sobre a história do local acesse: http://www.saomiguel-rs.com.br/Turismo/ e sobre as Rota das Missões

Não sei acrescentaria alguma coisa mais falando sobre este lugar, sua imponência, sua vitalidade, sua obra e as imagens falam mais do que qualquer tentativa minha de tentar dizer algo. Voltei a este lugar na noite de 31 de dezembro, assisti um trecho da missa, dentro da igreja, toda iluminada com velas pelo chão, um coral muito bonito, pessoas carregando cadeiras de praia chegando e se acomodando. Perto da meia noite, do lado de fora, mas dentro do que foi a grande cidade, comemoramos 2012.

Por algum motivo, eu estava de volta aquele lugar, depois de muitos séculos.

Para saber mais sobre o Caminho das Missões

Por Marcelo Ferraro/editor floripacool.com

Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O oitavo dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O oitavo dia…

O dia em que jamais esquecerei e todos vão lembrar!

Sempre fui amador em tudo o que fiz e olhando as fotos deste dia, penso que foi influência direta de 1977 em minha vida. Ainda não tinha 10 anos, quando ganhei a máquina fotográfica. Pensando bem não fazia nenhum sentido uma máquina fotográfica quando se tem menos de 10 anos. Olhando hoje faz todo sentido, a criança tem o olhar curioso, percebe o mundo de uma forma mais interessante que o adulto. A cena que a máquina constrói quando você olha por intermédio da lente, só você enxerga. Neste dia, estávamos todos no mesmo lugar. De um modo geral, todos contemplando a beleza. Estava um pouco mais atento, registrando a manifestação da natureza quando a luz do dia surge imponente no céu.

Entre as minhas leituras, deparei com um autor tão antigo e tão especial, que me fez pensar sobre a presença e a ausência da luz na contemplação do cosmos. O céu é azul, o universo segundo ele é escuro e o dia nasce para que possamos diferenciar o claro do escuro. E foi desta forma que olhei este dia. Talvez, estejamos acostumados ao dia sempre tão sempre igual, tão pronto, tipo céu de brigadeiro, algumas nuvens, sol a pino e com mudanças de humor mais ou menos carregado em tons cinzentos, que aquilo que deveria ser considerado extraordinário parece banal. O por do sol, este sim, talvez seja diferente em diferentes épocas do ano. Notamos com mais facilidade. Mas ver o sol nascer treze dias seguidos de um ângulo que você jamais imaginava ver, agradou.

A cena foi sendo desenhada, e apesar de ter dormido bem aquela noite, sentia-me cansado.
Nesta noite ficamos alojados numa escola, na localidade de Rincão dos Teixeiras, sob os cuidados da simpática dona Antônia. Havia algo no ar que fazia ficar atento e com o olhar firme no horizonte.

O sol foi surgindo, uma nuvem gigante estacionada sobre nossas cabeças e a manhã foi sendo tecida como no poema de João Cabral de Melo Neto, num misto de poesia e realidade… Pedro e Renato, meus companheiros de jornada pelos seis primeiros dias, um pouco mais a frente, criavam a imagem perfeita. Vi aquilo que eles viriam no final daquele dia. Não sei se vale a pena falar mais sobre este dia. As sensações que guardo comigo, estão registradas nas imagens que consegui captar e que divido com vocês.

O extraordinário!
Conheci duas outras figuras naquela manhã, Terezinha Nitahara e Marcos Flores, com eles dividi o silêncio da estrada com conversas sobre tudo.

O andar sem compromisso pelo prazer de andar faz algumas coisas especiais.
Você percebe que no dia-a-dia nem percebe e nem se dá conta de que elas existam, mas um amigo faz falta na tua jornada, uma conversa boba ajuda o tempo passar e uma conversa séria ajuda a resolver um dilema.

Uma risada a dois é sempre mais gostosa.

Se você quiser saber mais sobre o caminho acesse: http://caminhodasmissoes.com.br/

Por Marcelo Ferraro/ editor floripacool.com
http://about.me/FERRARO