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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O décimo dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O décimo dia…

O grande dia, o encontro com uma imagem que guardo na memória desde 1979.

Depois de 10 dias de caminhada e quase 300 km percorridos, estamos quase lá. De início minha vontade era fazer algo diferente no final do ano, por algum motivo, Eu e Renato Lima, conversávamos sobre as Missões, o meu desejo de conhecer a região e o desejo dele de caminhar. O cara percorreu sozinho o caminho de Santiago, saindo de uma cidade próxima a Lisboa e depois percorreu o caminho da Fé, entre São Paulo e Minas. Agora queria o sul do Brasil. Nem de longe esse era o meu objetivo. Mas o cara encontrou um caminho e pior me convenceu a entrar nesta aventura. No fim da história, quero agradecer ao meu amigo de mais de 20 anos pelo feito. Curto andar, subir montanhas, entrar de cabeça no mundo natural, mas confesso, dessa vez foi demais. Fui longe demais.

O texto é o mesmo, o sol nem bem nasceu e nós já estamos prontos para mais um dia de jornada funcionando quase no automático todos os dias. Você abre os olhos, fica de pé, vai ao banheiro, toma o café reforçado e volta para estrada. Anda alguns quilômetros e começa a se perguntar quanto tempo já andou, quanto tempo falta e segue enfrente. Usei uma estratégia simples, colocava o chapéu, óculos escuros, abaixava a cabeça e seguia a maior parte do tempo deste modo. Isso sem pensar, vez ou outra, a monotonia era quebrada por uma paisagem bela ou não.

Pelo caminho se vê o poder da roça contemporânea, bem diferente daquele tipo que a gente cultiva no imaginário coletivo. Como me disse Terezinha Nitahara, parece uma cena de Avatar. Tão assustadoramente gigantes, que parecem funcionar sozinhas, e a realidade é essa, algumas funcionam sem ninguém mesmo, noite e dia. Em algumas propriedades, elas são teleguiadas.

Minha companheira de caminhada neste trecho foi Terezinha Melo.

A mulher é valente, não cansa e não desanima, anda elegantemente com sua sombrinha de fazer inveja pelos campos missioneiros. Seguiu também um cão filhote, simpático. Ele foi seguindo adiante e acompanhado de perto por uma cadela de caça. Confesso que não gostei da companhia deles, dos dois cães, acho bonitos de olhar e um saco pra criar. Essa é a minha opinião, tem quem goste e tudo bem. O fato é que o tempo foi passando e eles ali acompanhando passo a passo. Lá pelas tantas, o pequeno se meteu entre minhas pernas, nem ele e nem eu andávamos mais.

A cadela, mais esperta pressentiu o perigo à frente e tratou de resolver o problema ela mesma. Mais a frente havia uma propriedade, com outros cães mais valentes e corajosos, logo começaram a latir e demonstrar sua “força”. Ela foi em direção a eles, latindo forte e os colocou pra correr, como geralmente acontece, até que entrassem para casa, enquanto isso nós avançávamos e o pequenino já dava sinais de que se sentia mais corajoso pra sair das minhas pernas. Logo vencemos o caminho, olhei e a cadela estava de guarda, lá embaixo. Não tardou muito e estava em nossa companhia novamente, foi uma cena e tanto. Comecei a gostar destes bichos babões, que costumam fazer suas necessidades nas ruas e a latir alto quando tento dormir.

Pouco tempo depois, fomos abordados por um motoqueiro, que estava em busca dos cães. Ele havia recebido um telefonema, dizendo que os dois estavam de novo entre os peregrinos. Parece que é um hábito do pequeno. Ele, percebendo a intenção do motoqueiro, tentou fugir. Foi colocado numa cesta e fugiu novamente, até que o dono conseguiu convencê-los de que o melhor a fazer seria voltar pra casa de moto. Foram embora e não sabemos mais nada sobre eles. Até passei a admirar a coragem do bichinho, mas já passou, e pelo que entendi, ele segue junto e depois não sabe voltar sozinho, por isso a cadela o acompanha sempre. Legal, né! Pensando bem, tem sempre alguém no teu caminho pra ter dar aquela força, seja você quem for.

O asfalto surge em nosso caminho e já avistamos a imponente igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões. Esperei tanto por este dia, que mesmo enxergando de longe, já dava sinais de ansiedade. Paramos para o almoço, alguns metros antes de ficar frente a frente com ela. Pedi uma dose de uísque e relaxei, queria chegar lá relaxado para contemplar.

Talvez, este colosso de a exata dimensão do que tenha sido essa região há uns 300 anos atrás. A quantidade de gentes circulando pelos caminhos que percorremos, refizemos entre uma redução a outra. Em pensar que por decreto e acordos palacianos, decidiu-se por acabar com tudo, dizimar essa gente. Quando se entra neste local, há imediatamente uma sensação de paz, uma paz que você só encontra em solo sagrado, onde o silêncio é sepulcral. Essa foi a minha sensação, estava num local, onde tudo, cada pedra do lugar deveria ser respeitada.

Lembrei-me de uma música do Skank, As noites.

“As ruas desse lugar
Conhecem bem…
As casas desse lugar
Se lembrarão…
As pedras municipais
Se impregnaram”

São Miguel foi fundada em 1687, no mesmo ano que São Luiz Gonzaga. A igreja foi erguida com ajuda de 100 homens, entre 1735 e 1745. Na verdade a cidade teve dois momentos fundadores.

Para mais detalhes sobre a história do local acesse: http://www.saomiguel-rs.com.br/Turismo/ e sobre as Rota das Missões

Não sei acrescentaria alguma coisa mais falando sobre este lugar, sua imponência, sua vitalidade, sua obra e as imagens falam mais do que qualquer tentativa minha de tentar dizer algo. Voltei a este lugar na noite de 31 de dezembro, assisti um trecho da missa, dentro da igreja, toda iluminada com velas pelo chão, um coral muito bonito, pessoas carregando cadeiras de praia chegando e se acomodando. Perto da meia noite, do lado de fora, mas dentro do que foi a grande cidade, comemoramos 2012.

Por algum motivo, eu estava de volta aquele lugar, depois de muitos séculos.

Para saber mais sobre o Caminho das Missões

Por Marcelo Ferraro/editor floripacool.com

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O nono dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O nono dia…

O silêncio depois da última publicação tem lá seus motivos!
Houve um enorme hiato entre a publicação do oitavo e do nono dia, quase proposital. A explicação é simples, fui assaltado e o equipamento com os arquivos foram levados, mas para minha felicidade, tinha cópia dos arquivos fotográficos no escritório…

Escrever deste ponto em diante era só um detalhe, a coisa mais chata, é que tive que (re)fazer outros tantos trabalhos, inclusive um roteiro quase finalizado. Bom, faz parte desta ousadia que é viver!!!

Quando comecei a jornada em dezenove de dezembro de dois mil e onze, tinha uma certeza e quando concluí em 31 de dezembro estava convicto dela. Nunca mais, iria me meter numa coisa dessas, sair por ai andando dias e dias. Hoje quando retomo este post, descobri que havia mudado de opinião!

Estou espiritualmente me preparando para próxima aventura.

O vitral acima é da Igreja Matriz da cidade de São Luiz Gonzaga.

Parte do oitavo e do nono dia foram nesta cidade, redução missioneira, fundada em 1687. Uma cidade de porte médio, com ampla rede de serviços, um conjunto de espaços culturais e históricos que remontam ao período jesuítico guarani na região e outros acontecimentos como a passagem da Coluna Prestes em 1924. Conta também com um acervo interessante de obras figurativas do universo católico, alguns santos conhecidos e outros nem tanto, ao menos para mim. Como é o caso de San Izidro.

Olhando essas imagens acima e comparando-as com peças do mesmo período, mas de influência portuguesa, notamos algumas diferenças nas expressões e sobre tudo no tipo fisionômico. Os rostos tendem são mais finos, “espanhóis” é claro, embora exista quem discorde dessa ideia defendendo que se parecem mais com os tipos “guaranis”. Não sei, são mais espanhóis, aparentemente é isso. Talvez a estatura, indique uma semelhança entre os indígenas. O dado importante aqui é que todas às peças produzidas nas reduções, que recriam o universo imaginário católico na região, foi feito por mãos de homens “selvagens”, segundo o mundo civilizado da época.

Este meu fascínio pelas mãos tem lá sua explicação, afinal, desde que nos entendemos por humanos, precisamos delas para tudo. Num pequeno parêntese, recomendo que se faça a leitura de “O papel do trabalho na transformação do macaco em homem” de Friedrich Engels. E mais, que se note em algumas obras de arte, e um exemplo disso é Portinari, retratando seus personagens brasileiros com pés e mãos grandes, e se compararmos a proporção do restante dos objetos em cena e dos corpos, nota-se a valorização do esforço humano na realização do trabalho. Tudo isso indica uma coisa, a força do trabalho braçal, hoje tão pouco valorizado pela idéia do produto final.

Emendabili, por exemplo, retrata em sua obra no Monumento Constitucionalista de 1932, no Ibirapuera, em São Paulo, essa característica do homem trabalhador, de mãos e pés gigantes. Trato destas questões pra evidenciar o trabalho manual dos Guaranis na extração, transporte, lapidação das pedras e na construção dos monumentos e das cidades naquele período histórico. Lembro também, a formação que receberam, e a habilidade que adquiriram para produzir e transformar pedras e madeira em objetos de arte. Não vou ficar aqui discutindo se isso foi bom ou ruim, discuto aqui o papel do aprendizado, da técnica e do desenvolvimento de habilidades dos indivíduos em quaisquer circunstâncias. A arte aqui representada é religiosa, mas é arte. Lembrando, que naquela época, tudo era arte religiosa.

Em São Luiz Gonzaga, tivemos um dia bem diferente dos demais.

Uma ducha perfeita no hotel, só quem fica alguns dias sem, sabe o valor que acaba tendo; almoço no restaurante, o bate papo cabeça regado a cerveja ao cair da tarde numa esquina qualquer e a pizza no final da noite. Perfeito, só que no dia seguinte, a realidade era bem outra, terra e poeira novamente.

Começamos um pouco mais tarde neste dia, o sol já despontava no horizonte e parecia incendiar as nuvens. Sinal óbvio que o dia seria quente demais.

Saímos pela cidade marchando em direção a São Lourenço, outra redução, perdida no meio do nada. O dia de hoje foi dividido em dois tempos: até o meio dia e a tarde. Resolvi testar minhas forças e comecei a imprimir um ritmo mais pesado de caminhada. Estava à frente e em determinados locais observava o grupo que vinha na sequência, ora no meio urbano ora de volta ao mato. Neste dia, conheci uma mulher com fôlego de gato, Yayoe, que caminha pelos quatro cantos da terra usando uma sandália Melissa. Isso mesmo!! Uma sexagenária, com mais vigor que eu. Nem precisava muito, essa é a verdade. Só de ouvir suas aventuras e peripécias fiquei com a sensação de que sou manhoso demais. E sou!

Como tinha a intenção de imprimir um ritmo mais pesado, fiquei muito próximo daquelas pessoas com mais experiência em caminhadas de longo percurso que conhecemos nos últimos três dias e me distanciei dos demais, inclusive dos companheiros dos primeiros dias. O fato é que neste dia algo inesperado aconteceu, estava de posse do mapa de navegação em mãos e lá pelas tantas, comecei fazendo cálculos sobre o tempo e a quilometragem gastos e percebi que estava bem próximo do local designado para parar e esperar o grupo.

Cheguei ao local logo depois, não havia ninguém, mais a frente vi algumas pessoas seguindo, eles nem perceberam que já havia passado do ponto especificado. O sol já estava alto, o cansaço começava a bater e estávamos todos sem provisões, uma vez que o ponto de parada oferecia uma refeição. Fiquei sentado no local, casa da dona Vera, esperando o retorno dos que se foram pelo caminho e daqueles que ainda estavam por vir. Aproveitei para saborear os picolés que ela oferecia. Comi uns tantos de morango.

Dois amigos, José e Pedro, seguiram adiante pelo caminho. Um risco, que poderia ter conseqüências, mas eram José e Pedro, nomes “místicos” numa região “mística”, peregrinos acostumados. No livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, Saramago, descreve a peregrinação de José e Maria, até a cidade natal deles para uma espécie de recenseamento da época, no trecho, o autor cita a distância que os homens tomavam das mulheres no caminho. Citava também a necessidade de se parar para o descanso e a necessidade de sair bem cedo para alcançar os objetivos com a luz do dia.

Uma triste realidade pelo caminho, fora a forração da soja pelos campos, a falta de chuva, foi ver a mata queimada, com o homem insistindo em por abaixo aquilo que a natureza levou anos para colocar acima. A terra seca, mantém a plantação no limite quase sem o que colher e o pouco de árvores que existem, algumas sendo queimadas para dar mais espaço para o plantio. Uma cultura estranha essa! Talvez seja um dos motivos do desequilíbrio da região. Logo em seguida chegamos numa bifurcação, quase um “Oasis” de sombra e ar fresco. Notei uma bananeira, logo vislumbrei a possibilidade de um fruto, algo raro em todo o trajeto que fizemos. Foi quase que como uma miragem, não havia frutos, nem verde e muito menos maduro. Parece que também não se tem mais o hábito de ter frutos em nossos quintais. Talvez uma lembrança da minha meninice. As plantações são para soja.

Talvez as pessoas achem natural comprar frutos em lojas, eu não.

Pelo caminho encontramos pessoas como dona Nara, oferecendo de bom grado simpatia, água gelada, chimarrão e um bolo delicioso para quem ainda tem quilômetros pela frente. Poucos metros dali uma cruz, algumas rosas, fitas ou lenços. O local foi palco de uma batalha entre forças oposicionistas, na Revolução Federalista. Moradores costumam enfeitar o local pelas graças alcançadas. Coisas estranhas, coisas dos lugares.

Alguns quilômetros à frente e o fim da jornada deste dia. São Lourenço Mártir.

Chegamos a esta redução, fundada em 1690, o local, melhor o que resta dele, é resultado da divisão de Santa Maria Maior, hoje Paraguai, que na época não comportava mais o contingente populacional. O local foi totalmente destruído e recentemente em escavações arqueológicas foram encontrados quase intactos o piso original da velha igreja. Fiquei pensando sobre as escavações, se revirarmos a terra, certamente encontraremos mais e mais vestígios. Mas fazer isso em meio ao nada, sem uma política definida e um objetivo claro, seria um desperdício de recursos econômicos que poderia ser empregado em outras reduções.

Um dado interessante, todas as construções eram de pedras, cidades com mais de 5 mil habitantes como já tratei, neste caso, e em outros, dois fatores contribuíram decisivamente para o quase desaparecimentos dos sítios. Um é o tipo de pedra utilizada na construção da cidade, diferente em cada cidade ou região, outro é o saque, por fim, a nossa falta de cuidado com o patrimônio. Outro dia ouvi uma frase curiosa, “somos uma nação jovem, não temos grandes patrimônios, porque estamos construindo”. Talvez faça algum sentido. Mas se vamos neste ritmo de por abaixo o que se levou séculos para por acima, não restará muito no final.

Amanhã é o grande dia! Partimos para São Miguel Arcanjo.

Para saber mais sobre o Caminho das Missões.

Por Marcelo Ferraro/editor floripacool.com

A Invenção de Hugo Cabret

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A Invenção de Hugo Cabret

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Invenção de Hugo Cabret, A (Hugo, 2011)

Estreia oficial: 23 de novembro de 2011
Estreia no Brasil: 17 de fevereiro de 2012
IMDb

Nunca imaginei que veria os filmes de George Méliès no cinema… E ainda mais em 3D! Portanto, para esta apaixonada pela História do Cinema que vos escreve, “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese, tem um ‘gostinho’ a mais. Foi impossível não sorrir e me emocionar ao ver fragmentos tanto das obras de Méliès quanto de outros grandes cineastas do cinema mudo projetadas na telona.

Porém, não se pode deixar levar apenas pela emoção e, analisando o filme de Scorsese mais friamente, é impossível não notar algumas ‘notas dissonantes’ no resultado final. É como se, de um lado, o diretor acertasse em cheio ao resgatar a memória da Sétima Arte, e o espírito de se preservar a história; porém, de outro, Scorsese ‘pesa a mão’, em uma história que se estende além do necessário e possui um bom número de personagens secundários totalmente irrelevantes para a narrativa.

O roteiro de John Logan (baseado no livro de Brian Selznick) conta como o órfão Hugo Cabret (Asa Butterfield), vivendo no interior das paredes de uma grande estação ferroviária de Paris, e tentando consertar um autômoto deixado por seu pai (Jude Law), acaba descobrindo a verdadeira identidade de um ranzinza vendedor de brinquedos (Ben Kingsley). Claro que, para isso, vai contar com a ajuda da filha adotiva do tal vendedor, Isabelle (Chloë Grace Moretz), ao mesmo tempo em que tenta escapar da perseguição implacável do inspetor da estação (Sacha Baron Cohen).

É bom deixar claro que o filme (assim como o livro em que é inspirado) é uma obra de ficção, e acaba ‘alterando’ a história do Cinema – mais especificamente a de Méliès – para torná-la mais dramática. E Scorsese parece ter achado a obra ideal para falar de uma de suas grandes paixões: o Cinema em si, e a necessidade da preservação da sua origem. Assim, no que diz respeito a esse aspecto o longa é impecável, e nos remete a uma verdadeira viagem aos princípios da Sétima Arte, mostrando trechos de “A Chegada do Trem na Estação” e “A Saída dos Operários da Fábrica Lumière” (ambos de 1895, dos irmãos Lumière), “O Beijo” (1896, de William Heise), “O Grande Roubo do Trem” (1903, de Edwin S. Porter), “Intolerância” (1916, de D. W. Griffith), “O Garoto” (1921, de Charles Chaplin), “A General” (1926, de Buster Keaton), “A Caixa de Pandora” (1929, de Georg Wilhelm Pabst), apenas para citar os que reconheci logo de cara (além, claro, de partes dos diversos filmes de Méliès).

Impecável também é a qualidade técnica do longa: desde seus grandiosos e cuidadosamente montados cenários (o interior das paredes da estação de trem; a própria estação, imponente; a amontoada livraria de Monsieur Labisse – Christopher Lee; a perfeita recriação do estúdio de Méliès), passando pela bela fotografia de Robert Richardson, que aposta principalmente no tom amarelado (ou sépia), além da edição fluida e que consegue mesclar (sem que percebamos) elementos reais com os virtuais, o excelente trabalho da equipe de efeitos especiais, e a ótima utilização do 3D.

Porém, ao voltar-se para a trama principal, envolvendo o jovem Hugo e sua busca em consertar o autômato – único elemento que ainda o liga ao seu falecido pai, Martin Scorsese parece meio perdido (talvez por estar pisando em um território novo, já que nunca havia comandado uma aventura infanto-juvenil), e abusa do melodrama. Sem contar, como falei, as inúmeras tramas paralelas que nada beneficiam o desenvolvimento da história e acabam fazendo justamente o contrário: tornam a narrativa mais arrastada e cheia de ‘barrigas’. E ainda que contem com atores de gabarito como Christoper Lee, Richard Griffiths, Frances de la Tour e Emily Mortimer em boas perfomances, e possam até garantir uma ou outra risada pelo caminho, acabam servindo apenas para reiteração de um discurso já entendido pelo restante do contexto da obra.

Mas como falei no início, “A Invenção de Hugo Cabret” encantou-me de uma forma toda particular, e o resultado final, apesar de não ser perfeito, soou-me muito além do satisfatório. Além é claro, da mesma forma que “O Artista“, possuir todo o mérito de resgatar um período da História do Cinema para novas gerações.

Fica a dica!

por Melissa Lipinski
Cinema com Mel