Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O nono dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O nono dia…

O silêncio depois da última publicação tem lá seus motivos!
Houve um enorme hiato entre a publicação do oitavo e do nono dia, quase proposital. A explicação é simples, fui assaltado e o equipamento com os arquivos foram levados, mas para minha felicidade, tinha cópia dos arquivos fotográficos no escritório…

Escrever deste ponto em diante era só um detalhe, a coisa mais chata, é que tive que (re)fazer outros tantos trabalhos, inclusive um roteiro quase finalizado. Bom, faz parte desta ousadia que é viver!!!

Quando comecei a jornada em dezenove de dezembro de dois mil e onze, tinha uma certeza e quando concluí em 31 de dezembro estava convicto dela. Nunca mais, iria me meter numa coisa dessas, sair por ai andando dias e dias. Hoje quando retomo este post, descobri que havia mudado de opinião!

Estou espiritualmente me preparando para próxima aventura.

O vitral acima é da Igreja Matriz da cidade de São Luiz Gonzaga.

Parte do oitavo e do nono dia foram nesta cidade, redução missioneira, fundada em 1687. Uma cidade de porte médio, com ampla rede de serviços, um conjunto de espaços culturais e históricos que remontam ao período jesuítico guarani na região e outros acontecimentos como a passagem da Coluna Prestes em 1924. Conta também com um acervo interessante de obras figurativas do universo católico, alguns santos conhecidos e outros nem tanto, ao menos para mim. Como é o caso de San Izidro.

Olhando essas imagens acima e comparando-as com peças do mesmo período, mas de influência portuguesa, notamos algumas diferenças nas expressões e sobre tudo no tipo fisionômico. Os rostos tendem são mais finos, “espanhóis” é claro, embora exista quem discorde dessa ideia defendendo que se parecem mais com os tipos “guaranis”. Não sei, são mais espanhóis, aparentemente é isso. Talvez a estatura, indique uma semelhança entre os indígenas. O dado importante aqui é que todas às peças produzidas nas reduções, que recriam o universo imaginário católico na região, foi feito por mãos de homens “selvagens”, segundo o mundo civilizado da época.

Este meu fascínio pelas mãos tem lá sua explicação, afinal, desde que nos entendemos por humanos, precisamos delas para tudo. Num pequeno parêntese, recomendo que se faça a leitura de “O papel do trabalho na transformação do macaco em homem” de Friedrich Engels. E mais, que se note em algumas obras de arte, e um exemplo disso é Portinari, retratando seus personagens brasileiros com pés e mãos grandes, e se compararmos a proporção do restante dos objetos em cena e dos corpos, nota-se a valorização do esforço humano na realização do trabalho. Tudo isso indica uma coisa, a força do trabalho braçal, hoje tão pouco valorizado pela idéia do produto final.

Emendabili, por exemplo, retrata em sua obra no Monumento Constitucionalista de 1932, no Ibirapuera, em São Paulo, essa característica do homem trabalhador, de mãos e pés gigantes. Trato destas questões pra evidenciar o trabalho manual dos Guaranis na extração, transporte, lapidação das pedras e na construção dos monumentos e das cidades naquele período histórico. Lembro também, a formação que receberam, e a habilidade que adquiriram para produzir e transformar pedras e madeira em objetos de arte. Não vou ficar aqui discutindo se isso foi bom ou ruim, discuto aqui o papel do aprendizado, da técnica e do desenvolvimento de habilidades dos indivíduos em quaisquer circunstâncias. A arte aqui representada é religiosa, mas é arte. Lembrando, que naquela época, tudo era arte religiosa.

Em São Luiz Gonzaga, tivemos um dia bem diferente dos demais.

Uma ducha perfeita no hotel, só quem fica alguns dias sem, sabe o valor que acaba tendo; almoço no restaurante, o bate papo cabeça regado a cerveja ao cair da tarde numa esquina qualquer e a pizza no final da noite. Perfeito, só que no dia seguinte, a realidade era bem outra, terra e poeira novamente.

Começamos um pouco mais tarde neste dia, o sol já despontava no horizonte e parecia incendiar as nuvens. Sinal óbvio que o dia seria quente demais.

Saímos pela cidade marchando em direção a São Lourenço, outra redução, perdida no meio do nada. O dia de hoje foi dividido em dois tempos: até o meio dia e a tarde. Resolvi testar minhas forças e comecei a imprimir um ritmo mais pesado de caminhada. Estava à frente e em determinados locais observava o grupo que vinha na sequência, ora no meio urbano ora de volta ao mato. Neste dia, conheci uma mulher com fôlego de gato, Yayoe, que caminha pelos quatro cantos da terra usando uma sandália Melissa. Isso mesmo!! Uma sexagenária, com mais vigor que eu. Nem precisava muito, essa é a verdade. Só de ouvir suas aventuras e peripécias fiquei com a sensação de que sou manhoso demais. E sou!

Como tinha a intenção de imprimir um ritmo mais pesado, fiquei muito próximo daquelas pessoas com mais experiência em caminhadas de longo percurso que conhecemos nos últimos três dias e me distanciei dos demais, inclusive dos companheiros dos primeiros dias. O fato é que neste dia algo inesperado aconteceu, estava de posse do mapa de navegação em mãos e lá pelas tantas, comecei fazendo cálculos sobre o tempo e a quilometragem gastos e percebi que estava bem próximo do local designado para parar e esperar o grupo.

Cheguei ao local logo depois, não havia ninguém, mais a frente vi algumas pessoas seguindo, eles nem perceberam que já havia passado do ponto especificado. O sol já estava alto, o cansaço começava a bater e estávamos todos sem provisões, uma vez que o ponto de parada oferecia uma refeição. Fiquei sentado no local, casa da dona Vera, esperando o retorno dos que se foram pelo caminho e daqueles que ainda estavam por vir. Aproveitei para saborear os picolés que ela oferecia. Comi uns tantos de morango.

Dois amigos, José e Pedro, seguiram adiante pelo caminho. Um risco, que poderia ter conseqüências, mas eram José e Pedro, nomes “místicos” numa região “mística”, peregrinos acostumados. No livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, Saramago, descreve a peregrinação de José e Maria, até a cidade natal deles para uma espécie de recenseamento da época, no trecho, o autor cita a distância que os homens tomavam das mulheres no caminho. Citava também a necessidade de se parar para o descanso e a necessidade de sair bem cedo para alcançar os objetivos com a luz do dia.

Uma triste realidade pelo caminho, fora a forração da soja pelos campos, a falta de chuva, foi ver a mata queimada, com o homem insistindo em por abaixo aquilo que a natureza levou anos para colocar acima. A terra seca, mantém a plantação no limite quase sem o que colher e o pouco de árvores que existem, algumas sendo queimadas para dar mais espaço para o plantio. Uma cultura estranha essa! Talvez seja um dos motivos do desequilíbrio da região. Logo em seguida chegamos numa bifurcação, quase um “Oasis” de sombra e ar fresco. Notei uma bananeira, logo vislumbrei a possibilidade de um fruto, algo raro em todo o trajeto que fizemos. Foi quase que como uma miragem, não havia frutos, nem verde e muito menos maduro. Parece que também não se tem mais o hábito de ter frutos em nossos quintais. Talvez uma lembrança da minha meninice. As plantações são para soja.

Talvez as pessoas achem natural comprar frutos em lojas, eu não.

Pelo caminho encontramos pessoas como dona Nara, oferecendo de bom grado simpatia, água gelada, chimarrão e um bolo delicioso para quem ainda tem quilômetros pela frente. Poucos metros dali uma cruz, algumas rosas, fitas ou lenços. O local foi palco de uma batalha entre forças oposicionistas, na Revolução Federalista. Moradores costumam enfeitar o local pelas graças alcançadas. Coisas estranhas, coisas dos lugares.

Alguns quilômetros à frente e o fim da jornada deste dia. São Lourenço Mártir.

Chegamos a esta redução, fundada em 1690, o local, melhor o que resta dele, é resultado da divisão de Santa Maria Maior, hoje Paraguai, que na época não comportava mais o contingente populacional. O local foi totalmente destruído e recentemente em escavações arqueológicas foram encontrados quase intactos o piso original da velha igreja. Fiquei pensando sobre as escavações, se revirarmos a terra, certamente encontraremos mais e mais vestígios. Mas fazer isso em meio ao nada, sem uma política definida e um objetivo claro, seria um desperdício de recursos econômicos que poderia ser empregado em outras reduções.

Um dado interessante, todas as construções eram de pedras, cidades com mais de 5 mil habitantes como já tratei, neste caso, e em outros, dois fatores contribuíram decisivamente para o quase desaparecimentos dos sítios. Um é o tipo de pedra utilizada na construção da cidade, diferente em cada cidade ou região, outro é o saque, por fim, a nossa falta de cuidado com o patrimônio. Outro dia ouvi uma frase curiosa, “somos uma nação jovem, não temos grandes patrimônios, porque estamos construindo”. Talvez faça algum sentido. Mas se vamos neste ritmo de por abaixo o que se levou séculos para por acima, não restará muito no final.

Amanhã é o grande dia! Partimos para São Miguel Arcanjo.

Para saber mais sobre o Caminho das Missões.

Por Marcelo Ferraro/editor floripacool.com

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