Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

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Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011)

Estreia oficial: 20 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 27 de janeiro de 2012

Quando soube que “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” iria ganhar uma versão estadunidense fiquei apreensiva. A versão sueca dos livros de Stieg Larsson era correta e, ainda que não mantivesse uma grande fidelidade narrativa à obra literária, o cerne de sua protagonista e, consequentemente, do livro, havia sido preservado. No entanto, ao saber que a versão yankee seria comandada por David Fincher, a apreensão deu lugar à ansiedade. Admiradora do trabalho do cineasta, confesso que a esperança de ver um filme ainda melhor que o original sueco superava o receio da ‘americanização’ da história.

E meus anseios, felizmente, confirmaram-se. Muito mais fiel à obra de Larsson, o longa comandado por Fincher evita a tal ‘americanização’ (apesar de ser falado em inglês), principalmente por preservar a localização da sua trama na fria Suécia, o que colabora não apenas para o desenvolvimento da história (já que os cenários são realmente importantes para que ela aconteça), mas também contribui para a sua estética; além de ser um respeito e uma homenagem ao seu autor e à obra original.

Como falei, o roteiro de Steven Zaillian mantém-se fiel ao livro, não só no que tange ao comportamento de seus personagens, mas também (e o que a versão sueca não fazia) à sua estrutura narrativa. Logo no início vemos o jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig) sendo condenado por ter escrito e publicado uma matéria na qual acusava um poderoso empresário sem provas materiais e contundentes. Para não afundar ainda mais a sua revista, Millennium, Blomkvist decide aceitar uma proposta um tanto quanto inusitada do milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer): investigar o desaparecimento de sua sobrinha favorita, Harriet, ocorrido há 40 anos, e cujo possível assassino só poderia pertencer à própria família Vanger, que aliás, é repleta de tipos, no mínimo ‘curiosos’, como ex-nazistas e pessoas nem um pouco amigáveis ou simpáticas. Para essa investigação Mikael acaba solicitando a ajuda da hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara), que havia levantado a sua ficha pessoal e profissional para que o próprio Henrik Vanger descobrisse um pouco mais a respeito do jornalista. Acontece que Salander tem seus próprios problemas: considerada incapaz, desde os 12 anos foi colocada sob tutela do Estado, e ‘coleciona’ uma sucessão de episódios violentos em sua vida. Assim, Salander e Blomkvist passam a investigar o suposto assassinato, revelando segredos há tempos escondidos pela família Vanger.

Bom, se considerássemos apenas os aspectos técnicos, o longa de Fincher já mereceria todos os aplausos possíveis. A começar pela sua excelente e criativa abertura que, através de suas formas, revela toda a confusão que cerca a vida e a personalidade da protagonista, Lisbeth. Já a fotografia de Jeff Cronenweth acerta na maneira como transforma as paisagens brancas (de neve) da Suécia em ambientes sufocantes e frios, que refletem, talvez, a natureza dos próprios personagens, e que só é amenizada nos raros momentos em que vemos Mikael Blomkist com sua filha. Assim como a inteligente escolha em manter enquadramentos que, posteriormente na história, entenderemos seu real significado, como manter Lisbeth ao fundo e desfocada, quando vemos, em primeiro plano, a foto da família de seu tutor, Nils Bjurman; ou quando ele mesmo levanta-se de sua mesa e a câmera mantém-se baixa, na altura de sua barriga – o que, aliado a eventos futuros, transformam-lo em uma figura repulsiva; ou ainda, no apartamento de Bjurman, como a câmera afasta-se (num travelling out) de uma porta fechada, como que não querendo revelar o que está prestes a acontecer lá dentro.

Igualmente competente é a sua direção de arte, que transforma cada residência numa espécie de prolongamento do seu dono, e revela muito de sua personalidade pelas suas cores, objetos e arrumação, por exemplo (o que acaba tornando-se essencial para o bom andamento da trama, já que tal fato ajuda no desenvolvimento e na diferenciação do grande número de personagens que aparecem).

Mas, de todos os aspectos técnicos, certamente é a montagem de Kirk Baxter e Angus Wall que merece maior destaque. Levando de forma paralela as histórias de Salander e Blomkvist até quase a metade do longa, a narrativa jamais perde a fluidez; isso sem contar que ainda possui um terceiro aspecto: os inúmeros flashbacks que contam a história passada de Harriet. Sem nunca perder o ritmo, os 158 minutos de filme jamais parecem se fazer notar, tamanha a agilidade e habilidade com que os montadores ‘orquestram’ as várias linhas narrativas.

Aliado a isso, David Fincher consegue criar um clima de apreensão que percorre a sua história do início ao fim, sem com isso, descuidar do desenvolvimento de seus personagens centrais. E é notável que o diretor confie tanto em seus personagens que mantenha a estrutura narrativa do livro de Larsson, onde continua a história mesmo depois do seu conflito principal ter sido solucionado – e se isso pode funcionar bem na literatura, é um artifício bastante arriscado no cinema. Mas o diretor consegue manter o espectador atento não só à solução da ação, digamos assim, mas também ao desfecho particular de seus protagonista, numa espécie de epílogo que dura mais de 10 minutos.

Mas o longa é mesmo de seus dois protagonistas. Daniel Craig consegue tornar o seu Mikael Blomkvist milhões de vezes mais interessante do que o protagonizado pelo sueco Michael Nyqvist. Seu jornalista é inteligente e ‘durão’, porém não da mesma forma impassiva com que Craig interpretava James Bond ou seu personagem em “Cowboys & Aliens“, por exemplo. Aqui, o ator demonstra muito mais sensibilidade e empresta detalhes a Mikael Blomkvist que o tornam mais ‘real’, como seu semblante atemorizado quando se vê em situações de perigo, ou sua insegurança quando está em um avião, apenas para citar duas características.

Mas é mesmo Rooney Mara a ‘alma’ do filme. Se Noomi Rapace já conseguira transformar Lisbeth Salander em uma criatura extremamente complexa e paradoxal num visual bastante peculiar, Mara vai além, numa composição ainda mais audaz. Se seu ‘look punk’, com suas roupas pretas, seu penteado ousado e seus piercings são intimidadores, a postura da garota diz exatamente o contrário: andando levemente ‘encolhida’, com os ombros contraídos, Lisbeth evita encarar as pessoas com quem fala (a não ser em momentos de maior tensão ou intimidade) – como se quisesse se enconder do mundo e, ao mesmo tempo, chamar sua atenção; e se consegue ser fria e mal educada com a grande maioria dos seres humanos, recusando-se a um mero cumprimento, mostra um carinho filial com seu antigo tutor, Holger Palmgren. Mara ainda consegue sutilezas na sua interpretação que revelam muito de sua personalidade, como no momento em que Blomkvist vai mostrar-lhe algo no computador e ela, nitidamente (ainda que discretamente) mostra-se irritada pela sua lerdeza (lembrem-se que ela é uma hacker, e das melhores!); ou no momento em que, depois de um ato covarde de violência, decide realizar mais uma tatuagem exatamente sobre um local machucado da sua perna e, ao ouvir o tatuador alertá-lo sobre a dor que sentirá, apenas dá de ombros, como se aquilo não fosse nada comparado às várias ‘porradas’ que já levou da vida – e notem o paradoxo: apesar de suas maneiras e suas roupas serem hostis e agressivas (em uma determinada cena, sua camiseta traz escrito “fuck you, your fucking fuck”), sempre que é vista se alimentando, está comendo um Mc Lanche Feliz. Porém, Lisbeth não é indefesa, e se transforma em um verdadeiro ‘animal’ quando se sente ameaçada, capaz de cometer atos tão violentos quanto os que sofre – o que a transforma em uma pessoa extremamente imprevisível e realmente perigosa. E, assim como nos identificamos pela sua fragilidade e a admiramos pela sua inteligência muito acima da média, também sentimo-nos inseguros frente à sua instabilidade emocional e carência de traquejo social.

Enfim, “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” não é apenas um thriller investigativo extremamente eficiente, mas um excelente estudo de personagens. E, assim como Noomi Rapace já o fizera, Rooney Mara transforma Lisbeth Salander numa das (anti-)heroínas mais interessantes e complexas da história do Cinema.

Agora o grande problema: David Fincher conseguiu me deixar ainda mais angustiada do que estava antes de assistir ao filme, já que não vejo a hora de encontrar novamente Lisbeth e Blomkvist nas suas duas continuações…

Fica dica!

Por Melissa Lipinski
Cinema com Mel

Regravação do excelente filme sueco. Confesso que quando soube que iam regravar fiquei com pé atrás. Mais uma regravação!! Daí vi que quem ia dirigir era, nada mais nada menos, que David Fincher (“Clube da Luta”, “Seven”, “A Rede Social“). Após ver o filme, porém, percebo que a decisão foi muito acertada. Não que a versão sueca seja ruim, mas esta nova versão é muito melhor.

Os personagens: Mikael Blomkvist (Daniel Craig) é muito melhor construído. Agora sim pudemos ver tudo o que esta personagem tinha a mostrar. Já a Lisbeth Salander (Rooney Mara) consegue superar a Lisbeth da versão sueca (e olha que Noomi Rapace estava excelente naquele filme). Lisbeth por um lado se veste de forma mais agressiva, no estilo punk, e anda sem encarar as pessoas, de cabeça baixa, tentando passar desapercebida. Ao se sentir acuada ela parte para o ataque como um bicho feroz. Muito boa a construção e a atuação de Rooney Mara.

Junte a tudo isso uma direção primorosa, cenários que fazem valer a pena o filme se passar na Suécia e uma montagem muito bem construída e executada.

Recomendo muito. (Também recomendo ver a trilogia original).

Por Oscar R. Júnior
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Trailer (legendado)

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