Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O sexto dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O sexto dia…

Amanhã é Natal!

Chegamos à terceira cidade do nosso roteiro, a segunda das Missões. A região surge nos séculos XVII num espaço bem delimitado pelo tratado de Tordesilhas, divididas entre Portugal e Espanha. Nesta região, mais de 100 mil homens e mulheres Guaranis viveram naquilo que se convencionou chamar de redução, ou seja, vilarejos. Uma experiência que duraria pouco mais de um século, de vida comunitária, sem propriedade e baseada no cooperativismo.

Hoje saímos um pouco mais tarde do que de costume, choveu forte a noite toda e entre a localidade de 21 de Abril e São Nicolau, eram apenas 18 km de distância. Véspera de Natal, uma sensação interessante e muito diferente de outros anos. Pela primeira vez, não estava embalado pela carga emocional e hedonista desta época, também não tinha visto nenhum enfeite de natal espalhado pelas ruas e nem estava vendo a agitação das pessoas em busca de alguma coisa de última hora.

Pra ser sincero, a única árvore com enfeites que vimos, foi na casa do seu Ivo nosso anfitrião. Também não faz muito sentido pensar sobre este assunto no meio do mato e com chuva.

Havia ao menos uma coisa toda naquele dia, que nos fez olhar tudo com tranqüilidade, o desafios de encarar a chuva, o barro e o frio com bom humor. Os girassóis fazendo caretas eram inusitados. Num lugar também inusitado, logo após atravessarmos o rio Piratini numa balsa, do outro lado era Passo dos Crentes, uma comunidade “evangélica”, no meio do nada. Chamou atenção a quantidade de igrejas protestantes. Uma coisa boba, mas boa de rir, era lembrar a data do dia seguinte e o fato de estarmos os três andando, de olho no céu, esperando uma trégua das chuvas. Mas como estávamos seguindo um caminho, parecíamos os três Reis Magos. Indo, sei lá pra onde.

Dia 24 de dezembro…
E o nosso destino era São Nicolau, tudo a ver, a terra do Papai Noel.

O trecho seria tranqüilo não fosse o barro escorregadio e pesado sobre os calçados.
Quanto mais andávamos, mais nos aproximávamos de casas e do trafego de veículos, um sinal importante, estávamos pela primeira vez, em seis dias de caminhada, próximos de uma cidade “grande”. Faltavam apenas alguns quilômetros para encontrarmos o asfalto. Estávamos próximo de conhecer umas das cidades missioneiras em que restavam ruínas dos Sete Povos das Missões.

Caminhamos durante uns 30 minutos num trecho muito complicado com muito barro, logo depois uma incrível subida por onde trafegavam vários automóveis e dali avistamos o asfalto e a cidade. Quanto mais perto da cidade, mais perto da estupidez do homem urbano.

O carro tem este poder, de deixar o homem mais estúpido, mesmo estando ele no fim do mundo. Um Jeepeiro, do tipo “agroboy”, resolveu tirar onda com a nossa cara. Acelerou na subida, derrapou e o resto você imagina. Lama pra tudo quanto é lado. A minha jaqueta verde ficou vermelha de terra molhada, minha bermuda suja de barro e minha cara, bom fiquei com cara de palhaço. Cheguei ao asfalto e detestei. Os pés doíam, estava com o tornozelo inchado, com uma bota inadequada e o calçamento era de pedras.

Acabou com o que restava dos meus pés.

Mas o mais engraçado ainda estava por vir. Cumprimentamos algumas pessoas numa das primeiras casas da rua, dois casais e uma criança tomando chimarrão. Perguntaram de onde vínhamos? Meus amigos seguiram e aproveitei pra descansar um pouco. Depois de algumas palavras aqui e outras ali, uma mulher me pergunta com toda simplicidade do mundo. O senhor tem problema mental? Afinal, é incompreensível mesmo entender as razões das pessoas que resolvem andar por ai sem uma finalidade utilitária. Talvez esteja ai o sentido das coisas. Fazer algo apenas por prazer e diversão.

A boa notícia era que finalmente estaríamos numa cidade grande. Logo, teríamos opções. Não foi bem assim, cheguei morto de fome e fui direto para o restaurante. Não sei se me deixariam entrar num estabelecimento de Floripa, São Paulo e Rio, com aquela aparência. Sujo de barro, molhado de chuva e com cara de débil mental. Mas fui muito bem recebido! Depois, seguimos para o hotel. Depois de muitos dias abrigados em casas, finalmente um hotel.

Chegamos ao Tio Patinhas.
Cheguei à recepção e não tive dúvida, fiz logo o anúncio: eu sou o Huguinho, ele o Zézinho e o outro você leitor deve se lembrar, eu não, sempre esqueço. Depois de banho tomado, deitado na cama, tive a infeliz ideia de fazer uma pergunta. Vamos comer onde? Meu amigo Renato, pega o mapa de navegação e lê a última linha do nosso roteiro. Lá estava sentenciado! Na noite de Natal, o jantar é livre.

Agora você imagina o meu desespero.
Naquela noite eu tinha que me virar pra arrumar comida. O cara andou 18 kms com o mapa na mão e não tinha se tocado deste irrelevante detalhe. Muito bem, andei quase toda cidade pra chegar ao bendito hotel, todo comércio da cidade estava fechando ou fechado. Aonde buscar comida naquele horário? Sai correndo, encontrei uma confeitaria aberta, apenas entregando as encomendas. Sorte que tinha um pedaço de bolo, o último e um café de coador. Foi a minha redenção.

Mais tarde chega um grupo ao hotel, que seguiria viagem com a gente no dia seguinte.
Eles trouxeram duas coisas importantes: um ceia de Natal e uma “bota velha” que me ajudaria chegar ao final desta aventura. Graças à ajuda da Estelamaris (que ofereceu uma bota) e do Romaldo (dono da bota, de muita utilidade) consegui manter o cronograma.

A diferença deste dia em relação aos dias anteriores, é que nesta fase nossa viagem segue o roteiro dos sítios arqueológicos da rota das Missões no lado brasileiro.

O que vemos nas fotos, de pé, é o que restou das reduções, vestígios apenas. A queda da experiência missioneira se dá com o embate entre os povos Guaranis e as cortes européias, por volta de 1768. O que se vê é parte da nossa história, patrimônio artístico e cultural deste povo que é também nosso. O desenvolvimento destas reduções se deve entre outras coisas ao cultivo da erva-mate e ao rebanho de bovinos na região vindas da outra margem do rio.

A “erva-mate”, durante um período do Brasil, muito mais na região sul do Brasil, recebeu o mesmo título que o café teve na região sudeste, o “ouro-verde”.

As fotos mostram e dão a dimensão do que foi está primeira redução missioneira no interior do Rio Grande do sul. Uma cidade onde viviam mais de 7 mil índios. São Nicolau, fundada por volta de 1626, localizada próximo ao rio Uruguai, pelo Padre Jesuíta Roque Gonzales, segundo reza, foi morto por índios que não aceitavam a “evangelização”.

É interessante pensar na grandeza destas cidades.

Havia neste sítio como nos demais também, toda uma arquitetura bastante diferente do modelo português que conhecemos Brasil a fora, de certa forma, bastante parecido com outras regiões da América espanhola. Faz todo sentido, porque este território pertenceu ao reino de Espanha. Eram cidades erguidas por homens habilidosos, que o homem branco simplesmente destruiu. As cidades missioneiras tinham entre outras coisas igrejas, escolas para as crianças, pátios, cemitérios, praças, casas, quintas e uma espécie de Câmara Municipal.

Muito do que sobrou desta memória é o que você enxerga aqui.

Outra coisa importante é perceber a maneira como nos apropriamos daquilo que é público ou que não pertence à nossa cultura vigente. É uma tradição de herança portuguesa. Destruímos para construir em seguida algo novo, nem sempre melhor. O casarão em ruínas da foto abaixo, de um coronel da região, foi erguido com pedras retiradas da antiga cidade. Note que é a nossa tradição política, pegamos, destruímos e não deixamos nada no lugar com um único objetivo, tornar o que é público, privado. Bastante semelhante com os dias atuais.

Se você quiser saber mais sobre o caminho acesse: http://caminhodasmissoes.com.br/

Por Marcelo Ferraro/ editor floripacool.com

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