Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O quinto dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O quinto dia…

Ainda faltam três horas para o dia clarear, estamos de pé prontos pra partir.

Não choveu no dia anterior e quando a primeira luz do dia começou a surgir lá no horizonte, sentimos as primeiras gotas caindo do céu. Tiramos as capas de chuva, cobrimos as mochilas e começamos a entrar campo adentro. Ao menos um dia menos quente, mais também o mais longo, logo descobriria que o mais pedregoso e mais úmido.

A capa esquenta e você transpira mais…

Sabe às vezes o sinal é claro, como nesta placa.
Pensar que um dia antes vivia um drama particular, desistir ou continuar o caminho nas condições em que estava.
O sinal era claro demais, se ficasse pensando na “bota velha”, deveria seguir naquela direção, ou esquecer e passar batido. Fui embora, caminhei mais 40 km, usando a bota nova.

Desta vez, usava uma marca nacional e muito mais eficiente.
Comprei em São José Velho, uma “Jeca Terrier” que não descolou, não deformou e nem soltou “as tiras”!

Em compensação, senti cada pedra do caminho. Foi como se fosse obrigado a sentir cada palmo da estrada. O pior dos trechos, um dos mais longos, usando um sapato inadequado, um terreno difícil de atravessar, sem condições de pedir socorro se preciso fosse e com uma chuva fina caindo sobre a cabeça. Apesar de tudo, um dia interessante com belas imagens e uma excelente lembrança das três pessoas que vimos durante aquelas 20 horas do dia.

A luz do dia já iluminava bem o caminho, quanto mais andávamos mais nos dávamos conta de que estávamos distante de qualquer coisa. Foi o dia que mais andamos sem ter colocado os olhos numa pessoa diferente, casa ou qualquer outra coisa na estrada que quebrasse a rotina. Neste dia, nenhum automóvel cruzou o nosso caminho, nenhum trator saiu da plantação. Não havia soja neste trajeto, tudo era pasto.

Foi um dia inteiro, nós três e as pedras.
Além da bagagem, dois cantis de 500 ml de água cada um, um sandubão de pão caseiro com queijo da colônia e uma banana. Nem desconfiávamos que 10 horas depois, ainda estaríamos caminhando. Pior, que este tipo de comida leve, não dá conta de repor o que você precisa depois de tanto esforço.

A árvore que tanto nos fez falta nos dias de calor, serve agora de proteção em dia de chuva. Independente do clima é sempre um lugar refrescante. Talvez, fosse o caso de pensar mais e melhor sobre a necessidade de ter mais árvores em nossas cidades. Uma forma natural de evitar o calor excessivo e enfrentar seca e chuvas em épocas do ano. Talvez a maior lição que tivemos tenha sido sentir a falta e a necessidade de estar perto de uma árvore.

Dentre todos os amigos que fiz nessas andanças, certamente fiz um grande pacto de amizade com estes gigantes da natureza. Interessante que elas vivem uma ao lado da outra e não se abraçam. São tão mais importantes que nós, e são tão parecidas. Talvez porque abraçar seja um gesto animal. Mas nós animais que somos, nem sempre somos capazes de abraçar quem está do nosso lado. Somos sempre tão incapazes de perceber a pessoa ao lado.

Ao menos no caminho descobri uma coisa: água faz falta, árvores fazem falta, pessoas são importantes.

Todo resto, não precisamos deles. O caminho que segue é o mesmo que volta. Até as aves estavam em duplas como na foto acima, talvez porque não exista a possibilidade de viver e ser feliz sozinho, como na letra música. Tomei outra decisão, não quero ser feliz sozinho. Tem muito tempo, mas muito que adotei pra mim uma filosofia: “sou um pescador de pessoas”, e por onde quer que eu vá vou reunindo pessoas e trazendo-as comigo.

Infelizmente nem todos tem essa capacidade.
Trago comigo somente aqueles que desejam estar comigo.

Logo mais a frente, pararíamos para beber um pouco mais de água e produzir o vídeo sobre a bota Bull Terrier, que abriu o bico na caminhada e você confere no facebook. Neste dia, cruzamos entre propriedades, o que vimos muito foram os rebanhos. Entre eles e nós, não havia nada, nem cercas e arames.

O bicho você sabe é curioso, eles e nós.
Decidimos brincar com eles, só que eles não sabem brincar direito. Você vai entender tudo!

Paramos para um descanso na casa do seu Xico, tomamos um mate, proseamos um pouco, o suficiente para ouvir sua história de balseiro pelo rio Uruguai e voltamos para o caminho.

Deste ponto em diante, chão e mais chão a percorrer, mais pedras e o pior uma colina atrás da outra teriam que ser vencidas até chegar em 21 de Abril. A fome bateu e o sanduíche sumiu das minhas mãos tão rápido que nem deu pra sentir o sabor. Neste momento, desejei ter um X qualquer coisa com muito sabor e bastante gordura.

Vencer a colina foi mais difícil, o pé estava doendo, o tornozelo mais inchado pegava na bota que cortava sem dó a carne. Mais pesado, mais lento e cansado, fui ficando e vendo os parceiros cada vez mais longe.

Passado algum tempo avistei os dois sentados, descansando.
A sorte que no dia anterior, li que não haveria a possibilidade de encontrar qualquer estabelecimento comercial pelo caminho. Logo, tratei de me arranjar, comprei as benditas barrinhas de cereal. Cheguei a este local da foto acima, joguei minha mochila no chão e desabei. Saquei da mochila minhas barrinhas milagrosas. A dupla estava sem o lanche da tarde, tentei arrancar um troco deles. Pensando bem, naquela situação, poderia obter um bom lucro com a venda. Brincadeira. Mas…

O caminho na reta final deste dia era teimoso, cheio de pedras, mais colinas, curvas a direita e a esquerda.

Depois de contornar uma casa, dando uma volta de quilômetros, tive vontade sentar e chorar de raiva, era só ter aberto a porteira e passar por dentro da propriedade que tudo estaria bem. Começamos a descer e no final daquele ponto, pedi ajuda, precisava de um curativo no pé. Mas o mais complicado estava por vir. Olhando para os quatro lados, havia uma só opção, subir, subir e subir. Olhamos para o relógio, já havíamos percorrido mais de 10 horas de estrada e nem sombra do lugar. No final daquela subia, depois de uma curva, estava à escola de 21 de Abril.

Lá o senhor Ivo, nos daria apoio. Cai no chão e fiquei deitado até entrar num carro.

Depois do banho e de lavar algumas peças de roupa, recebi o convite para uma cachaça, com limão é claro; na churrasqueira um baita pedaço de costela, na mesa outras tantas coisas para matar a fome e saciar o cansaço do caminhante.

Depois de olhar tudo aquilo, estávamos novos novamente e satisfeito com a viagem.

E a caipira do seu Ivo, baah, bem vinda. O quinto dia, chuva e lama na véspera de Natal.

Se você quiser saber mais sobre o caminho acesse: http://caminhodasmissoes.com.br/

Por Marcelo Ferraro/ editor floripacool.com

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