Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O segundo dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O segundo dia…

São seis horas da manhã, todo mundo de pé, inclusive o sol que desponta forte no horizonte.

Acordar cedo é a rotina de todo caminhante, só que no caminho das Missões, no verão, melhor é acordar mais cedo, prevenindo é melhor do que remediar, você já deve ter ouvido pelo menos uma vez está frase na vida.

Pois bem, neste dia, tínhamos 20 km de estrada pela frente e tudo parecia ser tão fácil pra ser verdade.

Andávamos rápido, imprimindo 4,4 km/hora, o mesmo empregado nas forças armadas, na infantaria. O ideal seria que a cada 50 minutos, fosse feito uma parada de 15 minutos para descanso. Não tínhamos essa coisa muito definida entre nós, e a falta de árvores, obriga você escolher parar quando uma é avistada pelo caminho.

A paisagem neste trecho parecia muito mais interessante do que as do dia anterior, além disso, a esta hora da manhã havia um frescor, uma brisa e muito menos poeira, mas só parecia.

Quanto mais cedo se sai, mais se aproveita do caminho, os animais silvestres estão mais à vista e você se depara com cenas como a que a foto acima apresenta. Vê coisas como essas, uma “humana” que mora na casa na beira da estrada e conversa com você na maior tranquilidade.

Nosso destino, Sarandi, uma comunidade do sertão de São Borja, distante do centro 37 km.

A poeira é evidente, assim como a falta de chuvas.
Paramos para abastecer o cantil com água fresca numa das poucas casas existentes ao longo da estrada.

Aqui vale uma dica!!! No mapa de navegação, você deve observar os pontos onde há abastecimento de água, não os ignore, você pode ficar sem com a maior facilidade. No calor de 42 graus, você bebe mais e ela esquenta. Beber água é essencial, quente é ruim, mas mesmo assim é melhor que não ter nada pra beber. Sei disso, porque fiquei sem água, mas conto este incidente mais adiante.

Outro dado importante é observar algumas indicações no caminho: uma casa, o mata-burro, uma seta indicando que você está no caminho certo. A falta de atenção, pode te custar caro demais, como andar mais do que o necessário.

Neste ponto, por volta das 10 hs da manhã, paramos e aproveitando as condições, alto de uma colina, sombra da preciosa árvore e gramado tão convidativo para um descanso.

Consegui obter o sinal do celular, armei o equipamento: netbook Asus, câmera Sony e um aparelho da Motorola com dois chips -, para transmitir a localização, narrar um pouco nossa aventura e postar uma foto ou outra. Detalhe, carreguei comigo um chip da TIM, é a mesma coisa que nada, na maioria das vezes ou o tempo todo, fiquei sem comunicação. Mas ai você descobre, no alto de uma colina, sinais mais fortes.

Optei por descansar mais, estava sentido mais o caminho, o terreno era menos plano com sobe e desce mais constante. O pior ainda estava por vir, desta posição vejo os caras sumindo no horizonte, só vou me encontrar com eles novamente quase duas horas depois.

Outra dica importante, melhor não se distanciar dos teus parceiros e nem fazer este trajeto sozinho, você escolhe assumir um risco desnecessário. O sol está lá no alto, o movimento no campo diminui e nenhuma viva alma passa pelo caminho.

Começo a descer pela estrada, encontro sombra, calor mais intenso próximo do meio-dia, tomo o restante da água que possuo e descubro que logo mais a frente tem uma colina ainda maior a vencer. Pelos meus cálculos, estava perto de completar os 20 km, meus amigos já não se encontravam no meu campo de visão. Decidi parar, meia hora depois, um trator deixa o campo vindo em minha direção, vou para o meio da estrada e peço um pouco de água. A sorte nem sempre é completa, cantil cheio e eles seguem na direção oposta da minha.

Caminho mais um pouco e tomo uma decisão importante, procurar um abrigo do sol. Estava consumindo mais água, estava mais pesado, cansado e não venceria a subida com facilidade.

Achei uma vala, fiz dela uma trincheira, uma área com mais arbusto para proteger do sol, acomodei a mochila de maneira a ficar mais confortável e abusei do protetor solar fator 30. Na mente, uma estratégia, ficar ali até o sol baixar. Na verdade, não tinha opção. Seguir naquelas condições seria arriscado. Foi ai, deitado a beira da estrada, que vi o problema aumentar consideravelmente, estava com fome, sem comida e vi a bota da Bull Terrier abrindo.

Outra novela, mais de um mês depois do evento, não consegui um acordo com a fabricante que insiste em um laudo, querem descobrir o motivo que alegam não ser deles. Detalhe, a bota não tinha 30 dias quando iniciei a caminhada. Ela é bonitinha, boa pra andar no shopping, péssima pra aventura. Na verdade, eles deveriam buscar resolver meu problema primeiro e depois tentar descobrir os motivos da falta de qualidade.

Meus amigos conseguiram chegar ao ponto de encontro, dado a distância e ao adiantado da hora, comunicaram minha ausência no vilarejo de Sarandi. Procurei ficar bem próximo à estrada e a qualquer sinal de movimento saia para ver se conseguia ajuda. Ouvi o barulho, logo avistei uma moto, o homem parou e disse que estava me procurando pela estrada. Estava resgatado. Estava seco de fome e de sede.

Pensei que ficaria ali por muito mais horas.

Cheguei ao vilarejo, pedi uma cerveja, almoçamos, tomei um banho e desmaiei. Por volta das 16 horas, fomos para o campo com o senhor Adelfo, do bolicho, e o Norberto, que foi quem me resgatou. Pensei na minha situação horas antes e naquele momento de descanso na beira do rio.

Foi um alívio poder estar na beira do rio Uruguai e não na trincheira até aquele momento.

De volta para o local do pernoite, sentamos para uma prosa com os locais, tomamos o mate e finalmente veio o jantar. Um banquete, comida da melhor qualidade. Um Surubim, feito no forno, com a melhor cara do mundo, que a dona Gelci, cozinheira de mão cheia, preparou.

A foto do peixe eu fico devendo, não sobrou muito pra contar história.

Este dia alternei um pouco o meu humor, fiquei tenso, mas depois respirei mais aliviado.

Se você quiser saber mais sobre o caminho acesse: http://caminhodasmissoes.com.br/

Por Marcelo Ferraro/ editor floripacool.com
http://about.me/FERRARO

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