Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O primeiro dia…

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Caminho das Missões – uma história em 13 dias. O primeiro dia…

O dia estava começando e a expectativa estava lá no alto.

Na noite anterior, fomos ao cais do porto, o point da cidade de São Borja bem as margens do rio Uruguai. Um momento de relaxamento antes da jornada, poder olhar a paisagem com folga, sua gente e tomar aquela cerveja gelada no final de tarde. Afinal, ninguém é totalmente de ferro que possa resistir a uma combinação dessas: calor extremo e um bar à beira-rio. Ainda mais sabendo que no dia seguinte estaríamos em marcha em direção ao nosso objetivo.

Foi bom ver a noite cair sobre nossas cabeças naquele dia. E assim seria pelos próximos dias.

Segunda, dia dezenove de dezembro – levantamos cedo, tomamos o café e decidimos atravessar a ponte internacional até a cidade Argentina de Santo Tomé, uma vez que nossa partida estava prevista para as 16 horas. Havia tempo suficiente para uma visita à cidade vizinha. Chegamos ao posto policial do lado Argentino, documentos em mãos, e uma descoberta inacreditável, meus parceiros de viagem não andam com o documento de identidade a tira colo. O pessoal do lado de lá é categórico: RG é documento aceito, Passaporte também. Mas habilitação profissional e de motorista não são aceitos. Resumindo, demos meia volta e retornamos.

Um indicativo importante de como seriam os nossos próximos 12 dias.

Decidimos nos contentar com a ensolarada São Borja, localizada entre as regiões do pampa e das Missões. São Borja também é o primeiro dos “sete povos” das Missões.

Terra de Getúlio Vargas e João Goulart, uma cidade fronteiriça, pequena e agrícola que logrou dois presidentes ao país em momentos diferentes da nossa história e não menos conturbado. Não bastasse, dali saíram outras tantas histórias e nomes do nosso passado. Dali, um tenente, organiza uma marcha contra o poder estabelecido e entra para história mundial como a Coluna Prestes, marca a inserção do Partido Comunista no Brasil e a sua vinculação com a Ex-URSS e outras tantas tentativas frustradas de se fazer a revolução socialista à brasileira.

São Borja, apesar de um lugar com “atrativos” de cidade “turística”, os pontos de visitação ficam fechados às segundas-feiras. Fomos visitar alguns destes espaços, mas em vão. Conseguimos entrar num centro de tradição, Casa dos Angueras, um lugar interessante que com seu acervo dos anos 20, remonta o século passado, um pouco do estilo de vida de uma região e conta sua história.

Fazia um calor tremendo, estávamos quase no horário de partir, passava das 16hs. Um ainda estava dormindo, outro curtindo os últimos refrescos da piscina, enquanto este que vos fala arrumava detalhes na mochila. Confesso aqui, pesada demais.

Tudo pronto!!! Posamos para as fotos de despedidas e partimos.

Deste ponto em diante, o sítio Preserva, ficaria em nossas lembranças.

Alguns passos e mais a frente, não veríamos mais o asfalto e começaria ali a nossa aventura de 13 dias de caminhada pela região das Missões. A foto acima mostra um caminho protegido pela mata e a foto abaixo, contrasta a realidade da região, sem árvores. A terra rachada pela falta de chuvas massacra o pasto, a lavoura e o rebanho e sacrifica o homem.

Durante quatro longos dias, o termômetro marcaria acima dos 41 graus.

Estávamos indo em direção ao primeiro pernoite da nossa viagem, caminhávamos rumo ao vilarejo conhecido como Passo da Barca, 17 km do local de partida. Passava das 17 horas e o sol começa a se por lá pelas 21 horas. O primeiro dia é sempre o mais tenso, há um desgaste do corpo, cansa mais porque você está frio, pede mais água e tudo parece irreal. Só ali comecei a pensar nas coisas que poderia enfrentar pelo caminho. A ficha foi caindo devagar. Voltar seria uma estupidez, mas seria razoável também. Muitas vezes recuamos na vida, outras vezes avançamos de forma impertinente, mas sempre há uma escolha. Não existe necessariamente uma regra, o teu limite vai dizer se pode ou não continuar.

Só pela imagem acima, você consegue perceber os mais de 300 km que havia pela frente, mas nem sempre o terreno seria tão fácil de vencer. Seguíamos em fila, em duplas, às vezes os três. Mas cada um tem seu momento, têm horas que há o que falar, outras só mesmo o silêncio. A dupla da foto acima possuía mais experiência, só que seis dias depois e 190 km percorridos, o desgaste é o mesmo para todos. Independente do ponto em que você se encontra, se olhar para qualquer dos lados, perceberá que a linha do horizonte está lá, e mais nada. Você segue. Neste ponto, ainda havia árvores pelo caminho.

Fora tudo mais, cada veículo que cruza a estrada de terra, deixava a paisagem com essa aparência pálida.

Você, sua roupa, sua alma, ficam impregnados de pó. Ainda assim, há tempo pra brincadeira, afinal, seria a única diversão que teríamos ao longo da caminhada. Pensando bem, um excelente momento pra brincar, pra ser criança novamente. Quem sabe espantar um fantasma. O verde da plantação indicava uma constância no caminho. Tudo era soja. Pouco antes de pararmos para beber água e fazer umas fotos, caminhava em dupla batendo um papo, quando uma cobra cruzou nossa frente menos de 1 metro de distância. Seria apenas a primeira de muitas que cruzaríamos pelo caminho em 13 dias.

Para um primeiro dia, era emoção demais. Chegamos ao vilarejo, um galpão de uma comunidade cristã, lá tomamos um banho, fizemos a refeição e desmaiamos. Menos eu, fui atacado por pernilongos, muriçocas e o diabo a quatro. No dia seguinte, tinha bolotas pelo corpo todo, uma reação alérgica.

Mas nada comparado ao segundo dia, onde o sol aumentou, o cansaço bateu e a água acabou antes mesmo do trajeto ser concluído. Sem água, você não é nada.

Se você quiser saber mais sobre o caminho acesse: http://caminhodasmissoes.com.br/

Por Marcelo Ferraro/ editor floripacool.com

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