Telona: de ícones do rock e da cultura pop a políticos e guerrilheiros cineastas exploram cada vez mais a vida das personalidades, atraindo milhões aos cinemas.s

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O cinema sempre gostou de contar histórias reais em meio ao ilimitado universo de fantasia de que pode propor. Resgata (e recria) não só fatos que realmente aconteceram, mas, em especial, relatos de vidas. Assim, as cinebiografias acompanharam a história da própria sétima arte pela natural curiosidade do espectador de flertar com a vida alheia e pela vontade dos cineastas de focar determinadas jornadas pessoais. Basta começar pelos grandes mestres, como o russo Sergei M. Eisenstein, que, por duas vezes, se debruçou de forma épica e ideológica sobre grandes ícones da história de seu país: Alexander Nevsky (1938) e Ivan, o Terrível (parte 1, 1944 e parte 2, póstuma, 1945/1958).

O gênero volta à mente com a estreia, neste mês de julho, nas telas brasileiras, do interessante drama Gainsbourg – O homem que amava as mulheres (Serge Gainsbourg, vie héroïque). O filme acompanha a vida de Serge Gainsbourg (1928-1991), um dos mais notórios e peculiares cantores e compositores da moderna canção francesa. Poeta boêmio e mulherengo, ele pontuou momentos importantes da cultura pop de seu país desde a virada dos anos 1950/60, além de ter se relacionado com três das mais expressivas mulheres do fim do século passado: a cantora Juliette Gréco, a estrela e então símbolo sexual Brigitte Bardot, e a atriz inglesa Jane Birkin.

Autor da famosa e polêmica canção de amor e sexo Je t’Aime (Moi non Plus), eternizada na voz miúda de Birkin, ele quebrou tabus em letras e melodias, sempre dimensionou sua origem judaica e foi perseguido pelo espectro caricatural de seu semblante, com orelhas de abano, olhos esbugalhados e tristes, o nariz adunco e quase sempre com um cigarro no canto da boca.

“Gainsbourg é, para mim, um dos artistas geniais da segunda metade do século 20. Porque é um pianista, poeta e chansonnier na origem, que compreendeu as possibilidades de manipular os subgêneros musicais, as questões do multiculturalismo, a nascente cultura de celebridades e a ética peculiar da cultura pop”, enfatiza o jornalista e escritor Alex Antunes. “Não considero um modismo a redescoberta, ou a descoberta dele – um lugar que lhe foi negado em vida, em parte, por ele criar em francês. Mas também por ele ser mais do que um provocador, um terrorista cultural, atacando questões sensíveis, como o nacionalismo e a pedofilia”, completa.

Quem também adiciona à descrição é o jornalista e escritor Xico Sá: “Ele é o cara, o grande padroeiro, protetor e encorajador dos homens feios, que, ignorando o castigo da natureza, partem em busca de belíssimas mulheres. Como ele mesmo repetia, o nosso trunfo é saber que a beleza é passageira e a feiúra é para sempre.”

O biografado foi uma figura de extremos e, por isto, objeto até natural para um romance em quadrinhos. Não por menos, o longa é o primeiro trabalho em cinema do desenhista Joann Sfar. Responsável também pelo roteiro, ele transpõe sua obra para as telas mantendo muito do espírito cartunesco. Há rápidas inserções animadas na trama, além da materialização do “demônio interior” de Serge na figura de dois bonecos que o acompanham vida afora. Este recurso injeta personalidade à cinebiografia, que não se limita a falar de uma celebridade, mas pretende traduzir esteticamente seu espírito criativo e inquieto.

FATORES E REGRAS VARIÁVEIS
Numa cinebiografia, são aspectos importantes a considerar a (in)fidelidade a datas e fatos, as liberdades tomadas em favor (e, por vezes, em detrimento) da dramaturgia e o tom narrativo da obra. A manipulação é um instrumento que pode alterar a biografia de inúmeras formas. Sfar foi certeiro em usar a caricatura de Serge para inspirar estética e ritmo. Qualquer pequena liberdade está bem ajeitada em função do discurso do filme. Mas é irrevogavelmente decisiva a boa escolha do ator para personificar o biografado. E o diretor novato teve a felicidade aqui de encontrar o até então pouco conhecido Eric Elmosnino, com o perfeito physique du rôle. Ele é um sósia, um pouco mais minguado, que veste o cinismo e a sensualidade de Serge de forma quase espírita.

O longa de Sfar também não é uma cinebiografia modesta, pois, além de se esforçar na imagem reconstituída do músico francês, caprichou na escalação dos outros muitos famosos, a começar pelo trio de belas mulheres que se apaixonaram por ele: Juliette Gréco (Anna Mouglalis, que, um ano antes, interpretou a personagem-título de Coco Chanel & Igor Stravinsky), Brigitte Bardot (a ex-modelo e cantora Laetitia Casta) e Jane Birkin (Lucy Gordon, que se enforcou pouco depois de rodar este filme). Mas aparece também, entre outros, o escritor e “cantautor” Boris Vian (Philippe Katerine). Todos em ótimas caracterizações.

O cinema francês, aliás, zela muito bem por seus retratados. É só relembrar casos recentes, como Piaf – Um hino ao amor, de Olivier Dahan, que deu o Oscar para Marion Cotillard, em performance impecável, e Coco antes de Chanel, de Anne Fontaine, com Audrey Tautou – dois filmes de estatura convencional, mas com extremo rigor de produção e atrizes em momento luminoso.

As cinebiografias passam por diferentes escrutínios: de ordem estética, factual e também pessoal, já que é igualmente importante a identificação (ou não) do espectador com o biografado. Por isto, relações de melhores ou piores no gênero dependem sempre de fatores e regras variáveis. Há, no mínimo, uma constatação a fazer: boa parte das biografias escritas para cinema hoje primam pela seriedade e focalizam a realidade da forma mais reveladora que o mercado exibidor permite. É o elegante caso, por exemplo, de Milk – A voz da igualdade, de Gus van Sant, reconstituição ao mesmo tempo engajada e emocional da jornada do ativista homossexual Harvey Milk, interpretado de forma esplêndida por Sean Penn, que levou seu segundo Oscar.

Quando voltamos aos anos dourados de Hollywood, vemos que as cinebiografias eram concebidas como melodramas para arrebatar plateias e conquistar Oscar (com ênfase mais chorosa do que em casos recentes como Daniel Day-Lewis em Meu pé esquerdo (esgotado) e Jamie Foxx em Ray). São títulos como Ama-me ou esquece-me (1955 – esgotado), de Charles Vidor, em que Doris Day interpretou a cantora de jazz Ruth Etting, em tempestuoso casamento com o gângster Marty Snyder (James Cagney). E Melodia interrompida (1955), de Curtis Bernhardt, no qual Eleanor Parker personificou a cantora de ópera Marjorie Lawrence, que enfrentou a poliomielite e retomou a carreira.

O ofício de biografar grandes nomes e anônimos relevantes motiva, por vezes, um cineasta de forma quase predominante. É o caso, entre tantos, do norte-americano Oliver Stone, cuja filmografia inclui alguns documentários e reconstituições de passagens reais da história recente, mas, em especial, explora retratos que escancaram sua postura patriótica e hoje conservadora, construindo uma imagem consistente do próprio realizador e de sua geração.

As cinebiografias vão desde os multifacetados retratos presidenciais (Nixon, de 1995, W., de 2008, e JFK – A pergunta que não quer calar, de 1991 – esgotado) até a imagem de ególatras loucos, como o roqueiro Jim Morrison em The Doors (1991) – a melhor atuação da carreira de Val Kilmer –, e o rei da Macedônia Alexandre, o Grande em Alexandre (2004), com um Colin Farrell equivocado.

INCURSÃO BRASILEIRA
Um paralelo semelhante, no cinema brasileiro, pode ser considerado o cineasta Sergio Rezende: ele foi de José Wilker, como o político populista Tenório Cavalcanti em O homem da capa preta (1987 – esgotado), até Zuzu Angel (2006), com forte atuação de Patrícia Pillar. Sem esquecer (1994 – esgotado) e Mauá – O imperador e o rei (1999 – esgotado), este último, sobre o Barão de Mauá, empreendedor da primeira ferrovia do Brasil e desafeto de Dom Pedro II. “Rezende realizou cinebiografias dignas de atenção, mas errou feio em Mauá, filme de didatismo à moda dos telecursos de segundo grau”, pondera a jornalista Maria do Rosário Caetano, que se dedica especialmente ao estudo da produção latino-americana.

Focando a sétima arte nacional, é fácil notar como algumas das principais bilheterias da última década são justamente cinebiografias. É o caso dos recentes Bruna Surfistinha, de Marcus Baldini, que levou às salas de cinema quase 2,2 milhões de espectadores, e Chico Xavier, de Daniel Filho, que chegou a mais de 3,4 milhões de pagantes no auge do modismo espírita.

Mas Rosário observa: “A mais sólida cinebiografia brasileira continua sendo 2 filhos de Francisco. Breno Silveira biografou, com pegada documental, a dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano e, de quebra, o pai deles, o Sr. Francisco. Obteve respeito da crítica e imenso sucesso de público (5,3 milhões de espectadores). No terreno musical, há outra experiência digna de atenção: Cazuza – O tempo não para, com Daniel de Oliveira.” E Xico Sá ainda completa: “Sem falar em Estrada da vida (esgotado), do mestre Nelson Pereira dos Santos, um filmaço que conta a trajetória da dupla de música sertaneja Milionário e José Rico”.

Seja qual for a preferência e a simpatia, sempre haverá aquelas produções que não deveriam ter sido realizadas, como o famigerado caso de Olga, de Jayme Monjardim, e o seu novelão à mexicana sobre Olga Benário (Camila Morgado), casada com o líder comunista Luis Carlos Prestes (Caco Ciocler). Assim como há também vários grandes nomes que, curiosamente, até agora não foram biografados pela ficção cinematográfica, incluindo aí Castro Alves e Carmen Miranda.

Mas o cinema não deixará de investigar a vida alheia; que o diga, por exemplo, Somos tão jovens, de Antônio Carlos da Fontoura (que realizou o primeiro filme sobre Madame Satã, A rainha diaba (esgotado), em 1974). Trata-se da história do cantor Renato Russo, em fase de filmagens no momento. É o jornalista Alex Antunes que ainda pontua: “Cinebiografia é um gênero meio perigoso, porque costuma ser mais fiel à necessidade de louvar o artista do que à de honrar seu real espírito.” É fato! E é por isto que uma estreia como Gainsbourg – O homem que amava as mulheres só renova o interesse e a esperança no gênero.

Por Revista da Cultura

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