Literatura: Dylan, nada acabou…

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Bob Dylan é um ícone cultural do século 20 de relevância quase inigualável. Sua discografia quilométrica, as lendárias apresentações ao vivo em turnês ao lado de artistas como The Band e Grateful Dead, e, principalmente, o conteúdo de suas músicas, fizeram dele, provavelmente, o compositor mais ilustre de sua época. Pode-se dizer até que se tornou uma espécie de artista dos artistas. De Lenon-McCartney a Jagger-Richards, quase todos os nomes de expressão na música devem algo ao judeu fanhoso que completou 70 anos no final de maio.

2011 ainda marca os cinquenta anos da gravação do primeiro álbum do cantor (ainda que o disco só tenha saído no começo de 1962), quando o jovem Robert Allen Zimmerman chegava a Nova York, em janeiro de 1961, e, meses depois, em novembro, se transformava em Bob Dylan.

De lá para cá, não houve artista com tantas mortes e ressurreições como Bob Dylan. De grande revelação do folk a traidor do gênero, quando eletrificou seu som e deixou para trás a roupa – que nunca lhe serviu bem – de “cantor de protesto”. Outra hora, enquanto se tornava um ídolo pop da envergadura dos Beatles e de Elvis, simplesmente saiu de cena, dando início a um período sabático em seu sítio em Woodstock, logo após sofrer um misterioso acidente de moto. A adesão à música country depois da reclusão, com o fantástico John Wesley Harding, a conversão ao cristianismo em 1979 e a retomada da carreira com Oh Mercy, uma década mais tarde, depois de álbuns fracos e um período de ostracismo, são apenas notas de rodapé em uma carreira sem precedentes na história da música mundial. Há muito mais.

“Quase toda a sua música é interessante, mas certamente houve uma concentração de grandes composições em sua juventude, com os álbuns The Freewheelin Bob Dylan e Blonde on Blonde. O período posterior a esses álbuns também é muito rico, com John Wesley Harding e The Basement Tapes. Ele alcançou um novo patamar em meados dos anos 1970, com Blood on the Tracks e, novamente em 1980, com a música Blind Willie McTell. Voltou muito fortemente também em 1997, com Time Out of Mind. Assim, demonstrou a capacidade de criar trabalhos de primeira classe ao longo de um período muito longo”, ressalta o inglês Howard Sounes, autor de Down the Highway: The Life of Bob Dylan. O livro, lançado em 2001, acaba de ganhar nova edição, ampliada e revista pelo autor, nos Estados Unidos e no Reino Unido. No Brasil, a obra foi lançada com o nome de Bob Dylan – A biografia(esgotado), em 2002.

O GRANDE BARDO DO ROCK
Se fosse possível definir a complexidade de Dylan em uma palavra, a alcunha de “poeta” talvez lhe caísse melhor. Leitor dos grandes bardos americanos, como Poe e Walt Whitman, ele levou para a música a inquietação artística dos escritores beatniks, outra influência de primeira ordem para o cantor.

As palavras, portanto, estão no centro da arte do compositor, embora ele próprio refute, em uma atitude exageradamente modesta, a condição de poeta. “Wordsworth é um poeta. Shelley é um poeta. Eu não sou um poeta”, disse certa vez. “Se Dylan não é um poeta, quem é?”, rebate o escritor e poeta Fabrício Corsaletti, que conheceu a obra de Dylan por meio do documentário de Martin Scorsese, No direction home (esgotado). A partir daí, se tornou um devoto, a ponto de batizar seu último livro de poemas de Esquimó, em uma referência à canção Quinn the eskimo, do álbum Self portrait (esgotado).

Para se aproximar mais do universo do compositor, Corsaletti e um grupo de amigos se encontravam para traduzir letras do ídolo. “Traduzíamos oralmente e discutíamos os versos, dávamos interpretações, tentávamos nos aproximar mais do universo do Dylan. Lemos, nesses encontros, umas 150 letras, mais ou menos”.

Crônicas (esgotado), o livro de memórias que Bob Dylan lançou em 2004, não deixa dúvidas sobre a influência literária na formação do cantor. “Li basicamente poesia. Byron, Shelley, Longfellow e Poe. Memorizei o poema Os sinos, de Poe, e dedilhei uma melodia para ele no violão”, escreve Dylan. Mas o jovem trovador veria na música folk uma forma de arte tão poderosa quanto um romance de Faulkner. Inspirado pela “máquina de matar fascistas”, o violão do ídolo Woody Guthrie, o músico se encantou com os compositores “que escreviam canções que pareciam um livro inteiro, mas em apenas poucos versos”. Alguma semelhança com músicas como Idiot Wind, Series of Dreams, Hurricane, It’s All Over Now, Baby Blue e Desolation Row? Dylan seguiu firme na direção das grandes narrativas que cabem em uma canção pop. E foi, até agora, o artista que fez isso com mais desenvoltura.

“Ele é um dos poucos cantores e compositores que é realmente um escritor tão grande quanto os grandes poetas e romancistas. Há verdade em suas canções, que se articulam com nossos sentimentos sobre a vida”, diz Sounes.

PÉROLAS DO PORÃO
Dylan tem pelo menos cinco discos entre os mais importantes da história do rock. Entre 1961 e 1970, lançou dez álbuns, incluindo Highway 61 Revisited e Bringing It All Back Home, clássicos absolutos da década em questão. Mas o que mais impressiona é a capacidade do cantor de compor pérolas musicais ao longo de muitas décadas. Mesmo seus discos mais fracos costumam abrigar preciosidades. Empire Burlesque é um álbum pavoroso, um dos piores momentos dele em disco, mas Dark eyes está lá para salvar todo o trabalho. Outras canções geniais foram lançadas apenas em caixas comemorativas e em seus famosos bootlegs. É o caso de I’m Not There, uma das canções que faziam parte das diversas gravações feitas em 1967, por Dylan e a The Band, no porão de uma casa que ficou conhecida como Big Pink. Essas gravações se tornaram lendárias e foram pirateadas de várias maneiras ao longo dos anos. A versão completa das Basement tapes – conhecidas como Genuine basement tapes – é uma edição pirata espantosa, com 161 faixas.

Em 1975, Dylan autorizou o lançamento das “fitas do porão”, mas apenas uma seleção com 24 faixas. O historiador de música Greil Marcus dedicou um livro inteiro, chamado Invisible Republic (esgotado), às tais gravações e anos depois dedicaria um livro para analisar Like a Rolling Stone, talvez a música mais famosa de Dylan. Mas, para Marcus, I’m not there, que dá título ao filme de Todd Haynes sobre o cantor, possivelmente é a mais enigmática e impactante música de toda a obra dylanesca.

Fato é que Bob Dylan, desde o começo da carreira, foi guiado apenas pelo seu gênio. Sempre andou sozinho e, nas vezes em que se juntou a outros, manteve intacta sua dignidade artística e musical. “Ele é uma pessoa com uma vida abençoada, que tem um talento notável e a alegria de transmitir esse talento para o seu público”, diz Sounes, que fez mais de 250 entrevistas para seu livro, mas não conseguiu falar com Dylan.

Apesar de ter uma carreira exuberante e um repertório de quase mil músicas, Dylan nunca se acomodou. Em suas últimas turnês, o repertório dos discos mais recentes duela com versões desfiguradas de seus clássicos. O músico não facilita as coisas para os fãs. Em 1997, depois de bons álbuns dedicados a antigas canções folk, ele concebeu outra obra-prima: Time Out of Mind, que ganhou o Grammy de melhor disco daquele ano. Dylan demonstrava mais uma vez que foi, e ainda é, um artista inquieto, prolífico, uma insgostável fonte de ideias que só secará quando Robert Allen Zimmerman seguir o caminho sem volta que todo ser humano está fadado a trilha.

Por Revista Cultura

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