Literatura: página 25, do livro “não me abandone jamais”

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Talvez tenha sido por causa do tom sépia da capa do livro e do pôster do filme. Um dia, eu vi o céu curitibano, tipicamente nublado (em conjunto com o pôr-do-sol e sei lá quais outras condições atmosféricas) ,filtrar todas as cores e torná-las em variações do sépia. Tudo ficou tão próximo duma atmosfera de sonho que passei a associar aquela harmonia de tons ao que deveria ser o melhor dos mundos.

Talvez tenha sido por causa de meu fanatismo Nick Hornby, que me fez correr atrás do filme Educação, cujo roteiro foi escrito por ele e no qual Carey Mulligan brilhou pela primeira vez. Talvez tenha sido por causa de Ian McEwan e seu Reparação, que originou o filme Desejo e reparação, que me fez ter certeza do quanto admirava a performance de Keira Knightley. Talvez tenha sido por causa de Heath Ledger, que morreu deixando um filme inacabado, em que pela primeira vez vi o rosto de Peter Garfield. Talvez tenha sido por causa da confluência dos três atores no mesmo pôster, no mesmo trailer, no mesmo filme.

Talvez tenha sido por causa do título Never let me go. Eu já tinha ouvido um pedacinho duma música que era justamente essa expressão – pensava inclusive que este era o título da canção – mas não sabia de quem era. Cogitava ser uma canção popular ou um lullaby tradicional nos States. Tipo Oh, my darling/oh, my darling/oh, my darling Clementine… ou My bonnie lies over the ocean… Só depois que percebi que era uma música famosa de Elvis Presley, Love me tender (que recentemente ganhou uma versão do Pato Fu).

Talvez tenha sido por causa do autor ser japonês. Sou mentalmente incapaz de imaginar que um japonês possa escrever mal. Preconceito positivo não deixa de ser preconceito, tenho consciência disso.
Não me abandone jamais: tem como recusar a um apelo destes?

Tão logo pude, vi o filme.
Pouco tempo depois, comecei a ler o livro.

Estava ainda no começo, e talvez tenha sido por causa do sépia, dos sonhos e do quando me comovo neles e com eles, estava ainda na página 25, enquanto caminhava e lia e não havia perigo nenhum nisso, o caminho era rotineiro, mas talvez tenha sido mesmo porque Never let me go, que se chama na verdade Love me tender, tocava na minha cabeça, na voz suave de Fernanda Takai, mas eu ainda não tinha lembrado disso, e nada havia acontecido propriamente, Kathy ainda estava se aquecendo, falava um pouco de sua rotina, provavelmente, e não sei se se pode dizer que há algo de comovente na rotina, eu não me emociono só porque estou lendo um livro enquanto caminho, o que seria inapropriado, mas, mesmo assim, enquanto ela me contava um pouco como era seu cotidiano na época em que escrevia o livro, um pouco como era seu dia a dia na época do internato, ela não queria me dizer tudo de cara, mas eu já tinha visto o filme, já sabia onde aquilo iria dar e já tinha começado a chorar – apesar de que o vento gelado nos olhos bem abertos possa ser usado como desculpa.

Na página 25, ainda. E não decepcionou em nenhum momento posterior.

Por Blog Leiotr Comum


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