Literatura: livros infantoadultos

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Que livro devo dar de presente ao meu sobrinho de 4 anos? Será que posso contar essa história a uma criança que cursa a educação infantil? Quais os temas mais adequados a um leitor de 7 anos? — essas são perguntas comuns de se ouvir. A resposta não é muito difícil. Tudo bem, conheço muitos livros infantis, mas basta pensar naqueles de que gosto e pronto. Porque livro bom é bom para criança e para adulto. E não sou só eu que acho isso: Walter Benjamin concorda comigo, oquei?

Em um texto chamado “Livros infantis antigos e esquecidos” (obrigada, Tinas!) ele mostra como “nada é mais ocioso que a tentativa febril de produzir objetos — material ilustrativo, brinquedo ou livros — supostamente apropriados às crianças”. Contando a história de um grande colecionador de livros infantis, Benjamin chama atenção para uma coisa muito importante: as crianças não são seres incompreensíveis para os adultos nem muito diferentes de nós, e por isso não precisamos realmente ser muitos inventivos na hora de criar histórias e desenhos que as agradem.

Os pequenos se interessam pelas respostas verdadeiras e não aquelas “criadas” para atender ao seu universo particular. E isso acontece de maneira saudável, pois, ao entrar em contato com aspectos do mundo adulto, as crianças sabem reorganizá-los em uma relação nova e original, construindo “seu mundo de coisas, um microcosmos no macrocosmos”.

Quem convive com crianças sente na prática como elas trazem mesmo tudo para a sua própria chave e repertório. Pegue um tema tabu como a morte, por exemplo, e duas meninas bem pequenas chamadas Zizi e Alice. Fomos à praia esse feriado, na casa de amigos. O lugar era lindo, a companhia estava ótima e minha filha mais velha (4 anos) foi embora chorando. No carro, aos prantos, dizia que queria ficar ali até morrer. Em 2 segundos mudou de expressão e corrigiu: “Peraí, não quero morrer”. Eu disse que isso ia demorar muito para acontecer porque ela era nova. “Mas um dia eu vou ter que morrer?” Sim, filha, todo mundo morre. “Então quer dizer que vai chegar um dia em que vou viver sem ter pai nem mãe?”. A irmã mais nova (2 anos) ouviu a conversa bem quieta e na noite seguinte, acordada por causa de uma dessas viroses chatas, com muita febre, me disse que também não queria morrer e me perguntou “aliás, por que a Alice nasceu?”.

A vida e a morte — até a morte da mãe —, esses não são temas “indicados” a duas pequenas desse escalão. Mas e daí? Na prática isso não vale. Acho que com os livros é parecido: podem interessar a todos e qualquer um, sem muita restrição de idade, e pelos motivos mais diversos possíveis. Lembro da Lili (que criou o selo infantil da Companhia e é a editora master) contando sempre como a Letrinhas nasceu com a aposta de que um bom livro não tem pátria ou origem, de que poderíamos editar livros estrangeiros, sim. Essa questão já está totalmente superada hoje em dia, mas tenho achado que, salvo algumas honrosas exceções, os livros podem não ter, também, idade. E por isso procuro manter com eles a minha postura de mãe: aquela que, de coração aberto, prepara cada volume para o mundo inteiro gostar.

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Por Blog Companhia das Letras/Júlia Moritz Schwarcz editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia.

Acesse: www.floripacool.com

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