Literatura: influências confessáveis

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Por uma série de motivos, entre eles o Código Penal, é difícil para o escritor ser sincero sobre influências. Ou ser exato, já que matrizes de ideias, técnicas e estilo muitas vezes são marcas involuntárias numa obra. Mas há tipos de influência que não há mal em admitir, e que são tão ou mais importantes que as sofridas quando já se tem consciência de ofício.

A primeira é a mais básica: a que faz alguém virar leitor, condição sem a qual não se vira escritor. Na infância remota não é algo que se relacione diretamente com o manejo do texto: pode ser a mãe contando a mesma história ao pé da cama e fazendo a criança se familiarizar com o beabá da narrativa – personagens, suspense, clímax, catarse. Pode ser a visão da mãe segurando esse livro, com a criança percebendo que os universos e personagens descritos estranhamente vivem dentro dele. Ou o primeiro volume ganho de presente, quando nos acostumamos ao seu manuseio e funcionamento – virar a página e esperar um desenho, uma cor, uma textura ou um relevo diverso na sequência, o que não deixa de ser uma forma de expectativa ficcional.

Mais tarde vem o período crítico: quando começamos a ler sozinhos e sem ajuda de ilustrações – e aí os quadrinhos, de modo contraditório, podem cumprir um papel importante – e quando tal hábito precisa vencer distrações e vícios menos trabalhosos e mais sociáveis. Nesse caminho há aspectos mundanos, como a identificação da literatura ou dos escritores com algum modelo emocionante de dia-a-dia, estímulo bastante considerável quando se tem 11, 14 ou 20 anos. No meu caso, os protagonistas de Rubem Fonseca, que desvendavam crimes e viviam cercados de mulheres ao mesmo tempo em que eram leitores enciclopédicos, e as colunas de Paulo Francis, que exalavam charme intelectualizado em meio a um suposto luxo e glamour da então capital do mundo, cumpriram um papel que jamais seria possível a um professor obrigado a dar aulas sobre Lucíola, A moreninha ou Eu vi a linda Jônia.

A partir da leitura começa a se formar o instrumento, a linguagem, por meio do qual a necessidade de expressão, que é um tanto vocacional, sai das entranhas do escritor para a página. É um processo que também não se conclui sem um empurrão das circunstâncias. A existência do narrador inconfiável, por exemplo, não veio para mim da leitura de mestres na técnica – um Henry James, um Ford Madox Ford, um Machado de Assis –, e sim de um romance de Agatha Christie cujo protagonista se revela o assassino ao final. Não fosse assim, porque teria sido em outra idade, numa leitura com outro tipo de mediação, grau de inocência e objetivo, o recurso talvez não causasse tanta surpresa e impacto – e não acabaria se tornando tão importante na composição dos meus próprios romances.

O mesmo dá para dizer de descobertas que nada devem aos livros ou ao mundo que os cerca. É possível que passar as tardes ouvindo música dos anos 80 tenha me dado a noção, com o devido ridículo acoplado, de que a beleza quase sempre é triste. Filmes na linhagem Clube dos 5 talvez sejam a origem do existencialismo aguado dos meus primeiros contos. Ter sido surfista, num capítulo biográfico meio constrangedor, foi a motivação óbvia para meu segundo romance. Daria para seguir lembrando como surgiram conclusões que não viraram regras estritas, mas exercem marcas discretas nos textos que publiquei: a implicância com metáforas e retórica, a preferência por mostrar em vez de dizer, um certo ritmo das frases – também vindo da música, é provável – e até algumas superstições, como a de ao menos uma vez por livro usar a palavra “leite”.

É só porque são tantos fatores envolvidos, a lista quase infinita que compõe a experiência total de uma pessoa, que é possível falar em vozes literárias singulares num mundo tão repleto de escritores e histórias. A originalidade pura não existe, mas também não existe indivíduo igual ao outro. Agora, como tirar vantagem desse fato e soar único ao leitor, de maneira que você não seja confundido com suas referências, tanto as visíveis quanto as escondidas, é uma conversa um pouco mais complicada.

* * * * *

Por Blog Companhia das Letras/Michel Laub, autor de cinco romances, todos pela Companhia das Letras…

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