Literatura: diálogo delicado

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“Eu já experimentei quase todos os tipos de expressão artística. Como ator no teatro, diretor de cinema, humorista e apresentador de TV, pintor e músico, mas nada se compara à emoção que estou sentindo no dia de hoje.”

Quem me falou essa frase foi Jô Soares. Ele havia acabado de receber os primeiros exemplares de seu romance de estreia, O Xangô de Baker Street, no qual trabalhara por mais de um ano. Mandei os livros acompanhados de um buquê de flores e o tradicional e imprescindível bilhete do editor.

Na época ainda não havia internet. Durante o processo de escrita, Jô enviava para a minha casa, por fax, o que escrevia, quase página por página, em geral à noite ou de madrugada, logo que terminava de escrever. Ele esperava que eu lesse prontamente, junto com a Lili, e que passássemos a ele nossas impressões. Eu me atinha mais ao estilo e à trama, enquanto a Lili se concentrava no contexto histórico. A resposta não podia tardar mais do que uns quinze minutos, caso contrário, a bronca era certeira. Lembro bem que em certa ocasião Jô queria consultar a Lili sobre um novo trecho do romance. Naquele dia ele não gravaria o seu programa de entrevistas, e tinha a tarde livre. Desejava sanar dúvidas sobre dados históricos curiosos que desvendara. Quando ligou, a Lili ,a caminho da USP, disse-lhe que dava aulas no departamento de antropologia e só poderia falar mais tarde. Jô não se conteve e preparou sua pequena vingança. No meio da aula, um funcionário entrou na sala onde ela estava discorrendo sobre Montaigne, Margareth Mead, ou Lévi Strauss, e, chamando-a de lado, interrompeu a exposição:

— Desculpe, professora, mas acho que temos uma emergência. Há um senhor impaciente no telefone, com um sotaque carregado, dizendo que precisa falar com a senhora de qualquer forma.

— Mas quem será, e por que cargas d’água você para minha aula só por causa de um telefonema?

— Sinto muito, mas a pessoa diz ser um negociante que tem que lhe fazer uma entrega imediata, agora mesmo. Você teria comprado um anão ruivo, vindo de um povo distante. Ele insiste que tem esse delivery para realizar. Tentei explicar que não podia interromper a aula, mas ele está alterado, já ligou umas três vezes e diz que você está aguardando ansiosa a entrega. Pelo que entendi o tal anão exótico, sei lá, terá atribuições domésticas, mas também uso acadêmico. Ele diz que a professora contava com a presença do anão, que às vezes ele chama de pigmeu, na aula de hoje.

Jô conseguira o seu intento, ou ao menos passou o seu recado. Até hoje rimos muito ao lembrar desse e de outros episódios hilários que marcaram o lançamento de O Xangô de Baker Street.

De certa maneira, guardadas as ressalvas relativas ao gosto do autor por trotes e ao fato de Jô ser das pessoas mais engraçadas que já conheci, o caso é exemplar para o que quero dizer.

Os limites da dedicação de um editor a um livro variam muito, e não respondem a nenhuma regra fixa. Existem escritores, ou mesmo livros, que exigem ou desejam nossa presença constante, assim como autores que gostam de aliviar a solidão da escrita conversando sempre com o editor. Há outros que resguardam o silêncio da criação até o final. Existem livros que demoram muito além do esperado, e autores com os quais o contato tem que ser conquistado com sabedoria diplomática. Há ainda muitos diálogos que já nascem truncados e difíceis, verdadeiros desafios praticamente insolúveis mesmo com toda a habilidade política.

Quando a Companhia das Letras ainda ficava nos fundos da gráfica do meu avô, recebi um telefonema de Carlos Alberto Sardenberg, jornalista amigo, de quem publicara um livro sobre os bastidores do Plano Cruzado. Sardenberg trazia o recado de que Fernando Morais desejava mudar de editora e que estava disposto a conversar comigo. Ansioso, fui ao encontro do escritor que tanto admirava, e que na ocasião trabalhava na biografia de Assis Chateaubriand. Embora ainda apenas em projeto, o livro já era bastante comentado na mídia e aguardado pelo farto leitorado do autor. O encontro foi muito bem sucedido e o entendimento entre nós se deu à primeira vista. A discussão do contrato, no entanto, foi longa. Cioso do seu trabalho como escritor profissional, Fernando pedia cláusulas detalhadas, em tom superamigável, sempre dizendo que eram para a proteção da Ritinha, sua filha. Em resposta, para defender o lado da editora, eu invocava a Júlia e o Pedro. No final passei a pensar mais na Rita, e o Fernando nos meus filhos… Encontramos o tom da defesa dos valores comuns, compreendendo um ao outro, e relegamos os interesses de cada lado a segundo plano. Quando contei ao meu pai o adiantamento que aceitara pagar pelo livro, ele perdeu a respiração. Não era praxe, pelo menos na minha pequena editora, investimento tão alto e de tão longo prazo.

Alguns meses depois do contrato assinado, Fernando, constrangido, me ligou. Disse que eu deveria ser o primeiro a saber que aceitara ser secretário da cultura do Governo Quércia. Convidou-me para a cerimônia de sua posse no Palácio do Morumbi. Discursando na presença do novo chefe, o governador de São Paulo, citou-me nominalmente e comprometeu-se a cumprir o prazo do contrato de publicação do livro. Quando ouvi a referência a minha pessoa, fiquei morrendo de vergonha, e quase me escondi. E é claro que a promessa de entrega do livro não pôde ser cumprida. O contrato previa uma multa mensal pelo atraso na entrega dos originais — cláusula proposta pelo próprio Fernando, em nome dos interesses dos meus filhos. No entanto, a espera de cinco anos sem fazer valer a tal multa foi compensada, e muito, pela qualidade do texto. Nem sempre um livro nasce no prazo programado. É preciso saber esperar.

A minha leitura de Chatô aconteceu mais ou menos como a do romance de Jô Soares. Foi sendo feita aos poucos, porém em lotes maiores, capítulo a capítulo. O diálogo íntimo com Fernando Morais, durante a elaboração de Chatô, acabou sendo, também, uma das experiências mais prazerosas da minha vida profissional.

Tenho muitas histórias a contar sobre esses diálogos com autores e livros, e pretendo fazê-lo com calma e tempo. Hoje desejo apenas usar esses exemplos para pensar sobre o tempo de cada livro, a intimidade de cada relação, e sobre a delicadeza que o diálogo do editor com o autor requer. Existem edições nas quais podemos participar facilmente, escritores que sabem do proveito que poderão tirar do empenho do editor. Há livros que trazem a marca desse diálogo em suas linhas. Essas marcas devem ser segredos bem guardados. Assim como em sigilo devem ficar as histórias de livros nos quais a opinião do editor não foi seguida, e que mesmo assim aceitamos publicar. É bom lembrar que um livro do qual discordamos, em parte ou no todo, deve ser defendido na sua edição e promoção com o mesmo empenho; afinal é comum estarmos errados em nossa avaliação.

É bom acompanhar a reação da crítica e dos leitores ao livro, e aprender com nossos erros e acertos. A alegria ao ver o que pudemos fazer a favor de um original deve ser semelhante àquela vivenciada quando o mérito maior da edição foi o de simplesmente aceitar a liberdade artística e de expressão de um escritor.

Se um editor se lembrar antes da sua pequena contribuição do que das qualidades do escritor, pode se preparar para encontrar, cada vez mais, as portas fechadas no exercício de sua profissão. A inversão de papéis com os autores é doença letal, comum em nosso meio. Alguns colegas já foram acometidos desse mal e viram suas brilhantes carreiras se perderem rapidamente. Deliciar-se com o status que o diálogo com os autores oferece, e representar em público o papel de editor, em eventos sem nenhuma conexão cultural, atende ao ego e fere os princípios de elegância que fundam nossa profissão. O glamour do mundo dos livros é apenas mais um glamour, como não tem substância real não resiste ao tempo. O privilégio do diálogo deve ser usufruído privadamente e com a devida moderação.

* * * * *

Por Blog Companhia das Letras/Luiz Schwarcz editor da Companhia das Letras

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