Dez anos de cinema…

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O problema de fazer listas sobre os filmes da década reside em um fato simples: assistir um filme é relativamente fácil. É banal, algo como almoçar, dormir, escovar dentes. Entra-se em uma sala de cinema com todas as intenções do mundo – e ver o filme pode ser a menor delas. Um intervalo na espiral raivosa do trabalho do cotidiano; o pêndulo afetivo da indecisão de um início de namoro (com aquelas coxas tão perto da mão); uma solução frágil para não se conversar enquanto a proteção do sono noturno não chega; a esperança de que algum daqueles diálogos respondam nossas questões mais pendentes. Dizem que os olhos são a janela da alma quando não passam de um mural de intenções; a janela da alma é a tela do cinema: o olho chora e fenece, tremula, enternece, acusa e afaga porque dela o olhar nunca é devolvido, e não é preciso amarras ou escudos. O cinema exige apenas nudez.

A questão é quando se fala do filme que se viu: os escudos retornam, as máscaras. O intelectual encontra signos; a romântica, motivos pra falar mal do namorado; o facínora, combustível pro ressentimento; o onanista, diversão pra noite inteira. Como escreveu algum poeta, cada um tem o cinema que merece. Rascunhando uma lista dos 10 filmes da década, tentei estabelecer como termômetro o encantamento: quais filmes que me fizeram perder a noção do tempo. Não são os melhores filmes, porque essa estória de melhor filme é cobertor curto. São filmes que me fizeram permanecer sentado na cadeira, completamente extasiado, enquanto os créditos finais rolavam, e que se constituíram como experiência singular que posso, com facilidade, recobrar na minha memória afetiva.

O quarto do filho (2002), de Nanni Moretti. Drama familiar extraordinário em que um notório diretor do mundo caricato, exagerado, conta a estória de uma perda familiar da maneira mais elegante e tangencial possível. Há algo de extremamente doloroso em como ninguém sabe a fortuna que lhe espera, e presenciar o golpe desferido sobre uma família, realizado com um senso de economia e sem nenhum ornamento musical, é uma catarse: impossível não pensar nas pessoas que partiram e que ainda estão por partir, de como ninguém está preparado para morrer, que a escola da vida não ensina a fazer despedidas e que quando elas chegam é sempre inapropriado. Há um seqüência extraordinária no filme: cada membro da família vive pequenas situações de quase-morte – é uma faca afiada na bancada da cozinha, um descuido ao volante, um pequeno desequilíbrio no limite do degrau da escada – e que seja apenas um desses familiares que morra parece um indecifrável capricho do destino. Poderia ser qualquer um, revela a magistral e lacônica seqüência, porque a fatalidade desconhece a urgência pedestre. Moretti tem um senso muito delicado para pequenos detalhes, e nesse drama seco e esvaziado de sentimentalismo cada pequeno objeto do filho falecido é despedida e momento.

Outra experiência sensacional foi assistir o drama político O Divo (2008), de Paolo Sorrentino. O filme é uma biografia algo caótica do primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, que governou o país por quatro longas décadas. Um dos maiores deslumbramentos do filme é sua beleza plástica. O enquadramento inusitado (e algo caprichoso); os movimentos de câmera elegantes; a qualidade ferina e inteligente do diálogo.
A seqüência em que a equipe de Andreotti é apresentada, em câmera lenta, de ângulos incomuns, é completamente descartável no sentido de que o filme funcionaria sem ela. Contudo, são esses excessos que fazem o charme do filme e ajudam a construir sua atmosfera. Mais até: mostram como após 40 anos de poder o grupo de Andreotti vive um tempo todo seu, destacado da temporalidade da Itália de seu tempo. Há uma cena em que um de seus secretários corre por um corredor e escorrega jovialmente; após essa travessura, esse jogo, ajeita o paletó e retorna ao trabalho. Uma cena como essa, outra que poderia ser cortada, dá o tom envenenado do filme: um grupo que está tão acostumado ao poder que já encara a política com um jogo pueril e que não está preparado para a entrada vertical da Máfia no cenário político.

O maior prazer do filme é, contudo, ver o sublime ator Toni Servillo sumir totalmente na personagem de Giulio Andreotti. Atores, felizmente, não são o elemento central de um filme. Eles são capitais no teatro e na telenovela, por exemplo; mas o cinema trabalha de outra forma. Quando o roteirista, o diretor e o cinematografo são bons, atores apenas adicionam algo que a linguagem do filme – som, fotografia, enquadramento, movimentos de câmera – já narra por si só. Eles são um importante elemento a mais, mas não o elemento principal e essencial. Na maioria das vezes, pede-se muito pouco do ator de cinema: ande de aqui para ali; abra a porta; olhe pela janela. No entanto, alguns filmes, para funcionarem, pela maneira como foram concebidos, precisam de um intérprete gigantesco. Assistir O Divo é se render à inteligência das escolhas de Toni Servillo: a maneira algo rapina de andar, a forma como entrelaça as mãos, o hábito de olhar o vazio antes de tomar uma decisão, o modo como disfarça o prazer de ganhar um argumento. Cena a cena, sequência a sequência, o coração do filme é a perspicácia de Toni Servillo. (A curiosidade me fez assistir outros filmes em que Toni Servillo atuou e não exagero quando afirmo que ele é o melhor ator de cinema da atualidade – ele não faz nenhum papel semelhante ao outro, e em todos sua inteligência é aparente e persuasiva.)

Por Bravo/Blog Outra Babel

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