Açores – Baleia à vista

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No século XIX, na ilha Pico, Açores, vivia-se a dois tempos: o da terra, com os trabalhos agrícolas e o do mar. Aqui exigia-se serenidade e o silêncio impunha-se. Havia que “trancar” a baleia. A captura era o momento de todos os perigos. Vamos, aqui, recriar uma batalha repetida milhares de vezes.

Foguete no ar. Baleia no mar. As tarefas em terra eram abandonadas e os baleeiros do Pico corriam para o mar a tentar a sorte numa baleia. No século XIX, os botes estavam sempre armados, porque ao rebentar estridente de um foguete o tempo urgia. Os primeiros que chegavam à baleia anunciada, ganhavam. Em mar, o tempo era diferente. A paciência era rainha. “Trancar” aquele animal de grande porte podia levar algumas horas. Consegui-lo era uma garantia de sustento. «Muitas vezes o animal dava-se como vencido pelo cansaço» conta, entusiasta, o professor de história, Francisco Medeiros.

No Pico, a conversa faz-se entre currais de vinha e uma vegetação densa. Ruas estreitas rodeadas de casas antigas marcam o ritmo da ruralidade e conduzem até ao posto de vigia. O orvalho da manhã liberta o aroma do verde que se respira com agrado. Ao longe, o mar reflecte o imponente pico que dá nome à ilha. «Chegámos», afirma Francisco. Uma pequena casa branca redonda, com uma só entrada e uma janela, bem recortada, sem vidros. «Isto era um antigo posto de vigia». Aqui o vigia controlava o mar e ao mais pequeno sinal de baleia, lançava o foguete. «O vigia era conceituado e bem pago porque era o único que trabalhava diariamente. Se há baleias ele é que dava o sinal para os baleeiros partirem para o mar», diz o, também, ex-director do Museu do Baleeiro. O frenesim da baleia vivia-se sobretudo nos meses de Verão. Pela sazonalidade e incerteza, esta caça não representava uma actividade principal para o baleeiro. A agricultura era outro meio de subsistência.

Junto à vigia, Francisco Medeiros continua as suas histórias de baleias. «Nem todos os vigias vêem baleias no mar» diz, explicando logo que o trabalho do vigia não acabava na detecção. Quando os homens estavam no mar, ele tinha de seguir o trajecto da baleia e orientar os botes. «Havia vários códigos. Por exemplo se o bote ia mais para fora fazia-se uma fogueira à frente da vigia. Se era para terra o sinal fazia-se mais atrás», afirma.
Uma vez em terra, o cachalote era desmanchado. Largas tiras de toucinho eram-lhe retiradas e seguiam para os traióis. Imponentes panelas onde se queimava a gordura, originando óleo. Este era armazenado e vendido, sobretudo para a Holanda. «O óleo era utilizado, por exemplo, em tintas. Em todos os produtos químicos», comenta Francisco Medeiros. A produção e venda deste óleo era, então, «o meio de sustento final desta actividade».

As vigias constituem hoje postos turísticos para observar as baleias. A actividade baleeira ganhou contornos turísticos nestas terras atlânticas depois de dar vida ao Pico durante to século XIX. Os primeiros registos datam de 1863, na ilha das Flores. «Pouco depois terá chegado ao Pico», diz Francisco Medeiros. Uma actividade que, conclui, «no século XX, em 1987, termina».

Rota baleeira
O turismo revela-se um aliado para o desenvolvimento sustentável destas ilhas. No Pico, a rota baleeira desafia os visitantes a descobrir os sentidos que a ilha desperta. Os botes, que transportavam cerca de sete homens, estão agora expostos nas antigas casas de botes. Sempre viradas para mar. Caminhamos junto ao mar, na avenida ergue-se o Museu do Baleeiro. «Em homenagem ao baleeiro, não à baleia», reitera Francisco Medeiros.

No Museu do Baleeiro a viagem no tempo continua. Os instrumentos antigos revelam as dificuldades porque passavam estes homens aventureiros. Expõem-se lanças, roupas e rostos dos que fizeram a história da faina baleeira. No primeiro andar, a arte do scrimshaw dá a conhecer o que pode ter sido um passatempo dos tempos antigos. A pintura nos ossos e dentes de baleia nasceu nos tempos livres, na espera do foguete. Pintavam-se sobretudo imagens daquela actividade do mar.

Regressamos à rua. O mar parece revoltado, mas convida a um passeio junto a ele. Ao longe, na pequena avenida marginal, ergue-se outro museu, o Museu da Indústria Baleeira. Desta vez, o destaque recai sobre a actividade em si. Aqui as grandes panelas para derreter toucinho perfuram o solo, ocupando o primeiro e segundo andar do museu. O espaço está organizado para que o visitante acompanhe todos os processos da produção do óleo de baleia, até uma exposição interactiva. Computadores mostram imagens e contam histórias de uma realidade que ainda hoje vive na memória de cada um. «Em terras do Pico quase todos tiveram histórias de baleeiros na família. Os mais velhos ainda as contam», conclui Francisco Medeiros, com a mesma energia com que deu início esta viagem pelo Pico das baleias.

Por Café Portugal Net

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