Açores – Memórias do «celeiro da ilha» reavivadas no Museu do Trigo

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Construída em meados do século XIX, a estrutura que abriga o actual Museu do Trigo, situa-se na localidade de Povoação, na ilha açoriana de São Miguel. Um núcleo museológio que constitui uma atracção turística, funcionando como único Museu Etnográfico de trigo na ilha. Marília Vieira, coordenadora do espaço, conduz-nos a uma época em que o trigo era um pilar fundamental de um concelho que «teve uma grande tradição na produção de cereais». Actualmente restam as memórias e os engenhos seculares que revelam a força de um lugar que, outrora, já foi apelidado de «celeiro da ilha». Rodeado de um verde luxuriante e ladeado por uma ribeira de águas cristalinas, o Museu do Trigo constitui uma das paragens obrigatórias para quem visita a ilha de São Miguel, no concelho da Povoação. Quem visita o Museu do Trigo trava não só conhecimento com instrumentos que deram vida a uma produção cerealífera muito importante na ilha de São Miguel, como também encontra um manancial de elementos históricos que percorrem toda a actividade agrícola no concelho da Povoação e que estava vocacionada para o cultivo de trigo. Um espaço que guarda, ainda, sinais por descobrir, já que o trigo era encarado como um símbolo de fertilidade e de renascimento da natureza, desempenhando funções rituais. A atracção principal do espaço é o chamado engenho da Lomba do Loução (onde está situado), um instrumento de debulha do trigo que, segundo Marília Vieira, responsável pelo espaço, remonta a 1854. «Funcionou durante algum tempo como moagem. Foi uma ideia trazida da Alemanha por um emigrante, natural da Lomba do Loução, com o propósito de servir em particular os concelhos de Povoação e Nordeste», recorda. A ideia consistia na construção de uma casa em «pedra mole da Povoação e madeira, na qual existiam duas máquinas: uma debulhadora e uma tarara, cuja madeira utilizada era a acácia», como explica a responsável do Museu. A principal função da debulhadora era a extracção da palha e do grão. Este ia, directamente para a tarara, onde era separado da pragana (casca que reveste o trigo) e limpo através de um ventilador em madeira que se encontrava dentro da mesma. Dada a localização do engenho junto à Ribeira dos Bispos, a água operava como força motriz para o funcionamento da estrutura, através de uma pequena levada desviada da ribeira. A água que era afastada do seu curso, descia por um túnel de acesso à roda principal (a maior de todas as rodas) enchendo as gavetas da mesma, de forma a esta ficar pesada obrigando todo o sistema a funcionar, pois era ligado através de correias em pele de camelo. Este engenho que hoje é apenas um elemento que dá as boas-vindas a quem visita o Museu do Trigo esteve activo desde meados do séc. XIX até 1973. «A recessão cerealífera que se fez sentir por toda a ilha, em meados do séc. XX, fez com que o edifício ficasse dotado ao abandono, permanecendo assim por mais de duas décadas», realça Marília Vieira. Depois do abandono…a reconstrução. Em 1995, a Câmara Municipal da Povoação adquiriu o conhecido engenho com o propósito de o reconstruir e transformá-lo em Museu Etnográfico. «A sua reconstrução manteve-se fiel à traça original, portas e janelas feitas em criptoméria (árvore de grandes dimensões), havendo apenas algumas alterações interiores com a finalidade de melhorar os acessos às diversas divisões (escadas)», adianta. Um mundo por descobrir Transpostas as portas do Museu do Trigo abre-se todo um mundo que conta a história e tradição do cultivo do cereal na ilha. Para além de existirem máquinas originais com mais de 100 anos, o edifício, que abriu as portas em 2004, preserva a traça original de pedra típica da Povoação, mantendo em funcionamento a maquinaria antiga e abrindo a caixa do tempo à tradição ancestral do cultivo do trigo. Identificado por uma pedra, lapidada à mão, com o logótipo do museu, o acesso feito por um caminho em pedra conduz-nos à entrada do edifício, onde está situada a roda principal que é a responsável por todo o funcionamento das máquinas no interior. O acesso à sala seguinte é feito através de escadas em pedra, (pedra da Povoação), onde existem máquinas que em tempos davam força à produção do trigo. A maior é a debulhadora e a menor a tarara, cada qual com a sua função: debulhar e limpar. Há ainda uma sala de exposição permanente, cujo acesso é feito pelo exterior através de escadas de madeira. Nesta sala encontra-se um cilindro em ferro por onde o trigo era colocado, seguindo directamente para a debulhadora. Aqui, também encontramos alguns painéis explicativos sobre o trigo, a sua utilização nas quotidianas suas alfaias. Por fim, há ainda uma sala privativa do dono do engenho. Esta era utilizada como armazém do proprietário para guardar o trigo com que era pago pelos serviços prestados (debulha do trigo). «A mesma servia também como dormitório uma vez que o engenho trabalhava nos meses de Julho e Agosto, 24 horas por dia, sendo que o proprietário fazia turnos com outros trabalhadores que passavam a noite no engenho», refere Marília Vieira, adiantando que actualmente esta sala é utilizada como sala de chá, de exposições de artesanato e de produtos locais. Por fim, a coordenadora do Museu do Trigo considera que este é um espaço que retrata «o ponto de encontro entre o passado e o presente» e é «um óptimo exemplo de habilidade e engenho que herdamos dos nossos antepassados». O Museu do Trigo resulta de um projecto de recuperação do edifício onde hoje se encontra, fruto de uma parceria entre a autarquia de Povoação e a Universidade dos Açores. Por Café Portugal Net

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