Portugal – Pontes de Lima – síntese da “alma minhota”

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Nas alturas, tomando como um todo o Vale do Lima, abarcamos uma paisagem que ganha ares de Verão. O Minho nunca abandona os verdes, antes os empresta de estação em estação, mudando-lhes a tonalidade. Abaixo, soa um burburinho surdo de bulício matinal. Espreguiçam os povoados que salpicam o vale e que nos aguardam.

«… Quem não foi e não veio pela direita e pela esquerda da ribeira, de Viana a Ponte de Lima e de Ponte de Lima a Viana; quem durante alguns dias não viveu e não passeou nesta ridente e amorável região privilegiada (…), não conhece de Portugal a porção de céu e de solo mais vibrantemente viva e alegre, mais luminosa e mais cantante.»
Ramalho Ortigão, As Farpas, 1887

Há um murmúrio de água, daquela que se vê e da que apenas se ouve, mas que se percebe abundante. Água, não domada, que percorre fontes e regueiros talhados em pedra e outra que encontra caminhos entre rochas e raízes. Estamos a meia altura da serra, no Paço de Calheiros, solar nobre minhoto do século XVIII, unidade integrada nos Solares de Portugal. Á nossa frente o Vale do Lima acomoda-se entre montes, compondo um cenário de prados, milheirais, vinhas, florestas e bosques, por vezes subindo as primeiras alturas de serras como a de Arga, do Formigoso, de Antelas. Para Oeste, num horizonte que se perde entre nuvens, percebemos uma nesga de mar encravada nas elevações já próximo à capital de distrito, Viana do Castelo. Embora o estio comece a afirma-se no calendário, o ar matutino ainda guarda uma réstia primaveril. A paisagem expira vapores, soltando-se do verde de bosques. Em lufadas chega-nos o burburinho surdo de bulício matinal dos povoados que salpicam a paisagem. O Alto Minho é mesmo assim, exuberante nos verdes, tumultuoso nos relevos, abundante nas águas que correm ao encontro de rios com um carácter muito próprio, diferente de todos os outros rios portugueses. O Minho é também riqueza humana, nos usos e no estar, na sua multidão de casais dispersos na paisagem, de capelinhas alcantiladas, de património inesgotável. Ponte de Lima sintetiza muito desta alma minhota.

Primeiro o Lima:
Despertamos de uma espécie de torpor matinal, embalado pelo burburinho da água, pelas sombras generosas de uma latada farta em folha, onde despontam os primeiros arremedos de uva. Tudo o mais é pedra, musgo e arvoredo, onde se destacam as grandes magnólias de troncos possantes, copa volumosa e florida nesta época do ano. Acácias ladeiam a grande alameda que nos leva até ao portão do Paço de Calheiros e que nos irá aproximar dos horizontes que divisámos das alturas. O objectivo é Ponte de Lima, capital de concelho, que ganhou o estatuto de vila mais antiga de Portugal, por se recusar a ser cidade; um concelho com uma população de aproximadamente 45 mil habitantes.

Abordamos Ponte de Lima pela margem direita do rio, oposta à localidade. Compomos, assim, um cenário que enquadra o centro histórico da vila. Longe, para jusante, avistamos a ponte nova antecedida pela vereda de gigantescos plátanos, o Jardim ao longo da Avenida D. Luís Filipe, verdadeira muralha verde rente ao rio.
Liga-nos à outra margem a grande ponte medieval com os seus 15 arcos, quatro dos quais, os primordiais, romanos, testemunhando a presença milenar do império mediterrânico por estas bandas. O Lima era à época o mitológico Lethes, uma fronteira do esquecimento para quem ousasse a travessia. Esta fez-se, o Lima foi transposto e descoberto.

Este rio nasce em Talarinho, Espanha, nos contrafortes da serra de são Mamede. Engrossa rapidamente, cresce em rápidos que aproveitam os declives do curso que termina na foz do Vez. Domado, o rio acaba por encontrar descanso em grandes albufeiras e começa a parte mais calma do percurso, até Viana do Castelo, onde encontra o oceano. A sua serenidade faz jus às palavras de Diogo Bernardes, autor das “Flores do Lima”: “O rio que verás tão sossegado / Que te parecerá que se arrepende / De levar a água doce ao mar salgado”.

No centro da vila:
Há muito que a grande ponte se tornou imagem de marca da vila abrindo um prumo em pedra escura, directo ao coração da localidade. Percorremos aquelas centenas de metros; sobre um rio espelhando um verde profundo e sereno, domado pelas barragens a montante. O Lima devolve-nos um reflexo plácido da localidade, com o seu casario minhoto feito de granito, de xisto, de paredes alvas, de janelas amplas e grandes beirais, fazendo-nos crer na intemporalidade.
Ponte de Lima, contudo, não foi sempre assim. Noutros tempos, quem pela mesma ponte passasse veria uma vila amuralhada. Actualmente, vislumbram-se somente vestígios dessa muralha que em tempos, pelo reinado de D. Pedro I, contava nove portas.

Transpomos a velha ponte, chegamos ao Largo de Camões com o seu Chafariz Nobre, generoso nas águas que verte. Sabe-se que o mais antigo núcleo da vila nasceu, ali, junto à embocadura da ponte. É dia de Feira e, nas tendinhas os vendedores trajam a rigor, mais para visitante ver. O traje minhoto é rico e inclui o lenço amarelo, de franjas; o corpete branco, por vezes com atacadores; a saia rodada, longa, e com listas vermelhas; rico nos adornos, pois verdadeiro mostruário de ourivesaria feito de cordões, grandes corações de filigrana, cruzes de ouro maciço.

Arma-se a venda, exibe-se a criação, assam-se as chouriças, lasca-se o presunto, acompanha-se com um pedaço de broa e come-se, ali mesmo, numa sombra reconfortante. Oferecem-nos flores a troco de alguns cêntimos. “Para a sua senhora”, ouvimos de uma jovem de olhar cor de mel.

Iniciamos o percurso turístico pedonal, sinalizado com placas, orientando-nos pelos principais monumentos. Tomamos a artéria marginal ao rio, o concorrido Passeio 25 de Abril, povoado de comércio, algumas mercearias, fruta e verduras em exposição. Um odor que nos tenta para as ameixas, as nêsperas, os melões, um não acabar de produtos da terra. Toca-nos a expressão de uma vendedora de idade avançada que timidamente nos propõe: «umas maçãs bonitas». Não resistimos à candura; àquele estar genuíno. Acabamos por comprar um pote de mel e uma broa generosa.

Boa mesa minhota:
De volta ao caminho, passamos pela Torre de São Paulo (século XIV), maciça, outrora integrando a estrutura amuralhada da vila. Na pedra assinalam-se marcas das grandes cheias do Lima. De tragédias que no passado engoliram a parte baixa da localidade.

Continuamos o percurso. Primeiro a Igreja da Misericórdia para, depois, tomarmos a larga rua Cardeal Saraiva que sobe até à Praça da República. É inevitável a visita à Igreja Matriz, templo que sobrepõe vários estilos arquitectónicas. Ali está o românico, o gótico, o neoclássico. Fora, apreciamos o painel de azulejos (de 1940) comemorativo da Independência de 1640 assinado pelo artista Jorge Colaço

Antes da Praça da República viramos para a Rua do Souto. Mais uma vez a delicadeza das sacadas floridas, as paredes num jogo equilibrado, de fachadas nuns pontos pintadas de branco, noutros graníticas, noutros ainda, fazendo uso do xisto. Há harmonia, há frescura nos recantos, há grandes janelas, há beirais amplos.
Pela Rua do Souto chegamos à antiga Judiaria e, desta, franqueando um arco, contornamos a Torre da Cadeia Velha e, mais uma vez, estamos frente ao Lima.

Retornamos, para acabar no edifício do Paço do Marquês, do século XV. A Antiga Alcaidaria-Mor, funciona actualmente como posto de informação turista e, simultaneamente, mostra e venda de artesanato. Incorpora, ainda, um núcleo museológico.

É hora de saciar apetites, de provar alguma da cozinha minhota. Levávamos algumas referências. Lêramos José Rosa Araújo, que nos fala da mesa de outros tempos em Ponte de Lima, das suas tascas tradicionais como a «Petiscas», o «Seleiro» ou a «Encanada». Diz-nos o autor de «Limiana»: «os lavradores entravam, sentavam-se a uma das grandes mesas de pinho e pediam (..) um prato individual para cada um, contendo o arroz de sarrabulho, com dois rojões e uma chouriça de verde. Para beber, meio quartilho de vinho».

A descrição é o que nos basta para abrir o apetite Optamos pelo restaurante «A Tulha». Provamos um sarrabulho acompanhado por rojões e enchidos, como prato de resistência. Um verde tinto faz as honras ao Minho e, a rematar, um leite-creme, com a cobertura estaladiça. Queimou no ponto. O Minho senta bem à mesa.

Vila jardim:
A refeição farta pede nova incursão à beira Lima, pelo areal, que nas horas de maior movimento se torna parque automóvel, cenário bem diferente do que ali se vive em Setembro por altura das «Feiras Novas», uma das maiores romarias populares do Alto Minho. São três dias e noites de multidão, de interminável horizonte de tendas no areal. Ponte de Lima é pólo de atracção de gentes próximas, mas também dos que chegam de longe. Há música, há luz, ouvem-se regateios, compra-se um pouco de tudo: linhos e atoalhados, barros e porcelanas, ferragens, alfaias agrícolas, pipos e aduelas; come-se e petisca-se; baila-se. A festa é pagã mas é, também, religiosa. Momento alto é a Procissão de Nossa Senhora das Dores, acompanhada pelo repique dos sinos.

Continuando à beira Lima, de novo do lado oposto ao centro histórico, descansamos do almoço no Parque do Arnado. Este espaço veio aproveitar os terrenos e infra-estruturas de uma antiga quinta com o mesmo nome. Trata-se de um grande jardim temático, onde cabem muitas formas de pensar e conceber os jardins em diferentes épocas. Há o espaço romano, com a fonte rodeada pelo pátio em pedra; o grego com sebes em buxo; o renascentista com construção geométrica; o barroco, com a arte de talhar as sebes. É uma viagem pela história que se faz sob veredas cobertas pela vinha em latada e onde se descobrem as estruturas da quinta, como o sistema de rega com nora e tanques e regueiros em granito. Há, ainda, um centro rural, uma experiência agrícola, onde funciona a cozinha e o forno de pão.

Encontro com as alturas:
É hora de deixar Ponte de Lima ao encontro de algumas aldeias da serra. A estrada serpenteia e conquista rapidamente as alturas. Sucedem-se pequenas florestas de teixos, algumas manchas de pinheiro bravo e o inevitável eucalipto que também aqui, começa a conquistar a paisagem.

As leiras encavalitam-se nas vertentes, construindo socalcos que aconchegam pequenos campos de cultura, onde predomina o verde forte do milho. Subimos estradas secundárias, bordejadas por sombras convidativas.

Aqui o ritmo é outro, ainda muito marcado pelo ciclo das estações, do cultivo, da criação de gado miúdo. Nas aldeias aconchegadas às alturas ficam os mais velhos. Valem projectos de recuperação do património habitacional nas aldeias, como os que decorrem em Vila do Monte e Cabração, localidades que visitamos.

Paramos na aldeia de Vilar do Monte, nas alturas da Serra da Labruja, a Norte de Ponte de Lima. Depois de uma curva, o casario, encostado à encosta de relevos suaves. Atrai-nos o silêncio, povoado apenas pelos assomos de brisas nas ramagens altas de algumas manchas de floresta em torno. O pequeno largo da aldeia concentra dois cafés, a igreja, um chafariz e pouco mais. Deambulamos por ruas apertadas, espreitando travessas escuras, percorrendo latadas de uva ainda verde.

Hora de partida. De abandonar as alturas, os ares frescos. Nas curvas apertadas vislumbramos os vales abaixo, onde percebemos o grande rasgo da auto-estrada Porto-Valença que atravessa o coração do concelho. Aqui, na serenidade das serras minhotas, onde o tempo e o espaço são outros, a via rápida surge-nos como quase improvável. Braga está a apenas 30 minutos de caminho, a fronteira com a vizinha Espanha a pouco mais. Procuramos adiar o momento do inevitável regresso e concentramos a atenção numa imagem intemporal. Corre suave o Lima, reflectindo um céu timbrado a cinza. O rio parece não ter pressa no seu encontro com o mar.

Por Café Portugal Net

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