História contada por pessoas comuns

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No clássico da literatura Em busca do tempo perdido, o escritor Marcel Proust cria um ambiente impregnado de memórias que ajudam o personagem principal a perceber sua própria identidade. Os conceitos construídos em forma de narrativa mostram a importância da memória para quem busca decifrar a verdade e reforçam a máxima de que se aprende com o passado. Quase um século depois, o Museu da Pessoa concretiza os conceitos sugeridos na obra de Proust, registrando as memórias de gente comum, com o intuito de criar uma rede de “histórias de vida capaz de contribuir para a mudança social”. Para entender um pouco mais sobre a concepção e o trabalho do Museu, o Acesso entrevistou Erick Krulikowski, coordenador de Comunicação e Mobilização de Recursos do Museu da Pessoa.

Acesso – O Museu da Pessoa foi criado em 1991, quando ainda não se falava muito em patrimônio imaterial ou mesmo em museus digitais. Como surgiu o conceito do Museu?

Erick Krulikowski – A ideia do Museu da Pessoa surgiu a partir de um projeto de pesquisa da Karen Worcman, diretora do Museu, sobre a imigração judaica no Brasil durante e após a Segunda Guerra Mundial. Com o estudo, ela detectou que esses imigrantes vinham para o Brasil, portando somente a roupa do corpo e suas histórias de vida. Esse diagnóstico fez a Karen pensar nas histórias de tantas outras pessoas que nunca seriam conhecidas, porque a memória social não contemplava as pessoas comuns. Foi daí que partiu a ideia de construção do Museu da Pessoa,.

Acesso – Como se articula essa história “alternativa”, baseada na memória de pessoas comuns, com a História oficial?

E. K. – Nosso maior interesse não é encontrar uma verdade definitiva, mas contar uma história levando em consideração a memória das pessoas, suas diferentes visões. As histórias de pessoas comuns incorporam dimensões humanas sensíveis e afetivas, apresentando um ângulo que vai além do oferecido pela historiografia. O que fazemos é utilizar os fatos como marcos, empregando testemunhos pessoais para dar mais humanidade aos fatos. Afinal, quando se fala da importância de registrar essas histórias, automaticamente se fala da importância que cada uma dessas pessoas tem para a construção da sociedade.

Acesso – O Museu desenvolveu uma metodologia própria de entrevista e de arquivo deste material?

E. K. – As entrevistas fazem parte do nosso acervo museológico e, como em todo museu, precisamos tratar esses documentos. Primeiro, os registros são salvos em formatos de vídeo, áudio e texto, e passam por backups, que vão garantir que não se percam; na sequência, analisamos e editamos os depoimentos com a intenção de criar uma narrativa, que poderá ser transformada em livro, exposição ou documentário.

Acesso – O conceito de registro da memória de pessoas comuns pode servir ao fortalecimento da identidade de diversos grupos sociais. Vocês costumam compartilhar a metodologia proprietária com outras instituições?

E. K. – Auxiliamos as organizações que nos procuram a desenvolver seus próprios produtos. Mas para ampliar ainda mais o acesso à nossa metodologia, publicamos dois livros que explicam todo o processo de organização de um projeto de memória. Queremos que as instituições se apropriem da metodologia e possam utilizá-la da forma mais adequada às suas necessidades, seja para a retomada da memória ou para a revitalização da comunidade ou da cidade em questão. É importante lembrar que quando se fala do passado é inevitável que se faça uma reflexão sobre o momento presente. Esse movimento é capaz de provocar mudanças na maneira de pensar e de ver o futuro. Além dos livros, promovemos uma oficina, chamada “Marcos coletivos”, na qual os participantes buscam, juntos, estabelecer os fatos importantes que aconteceram em sua cidade ou comunidade. Quando eles chegam a esses marcos, entendem melhor os eixos de sua própria história e os caminhos que seguem no presente. Oficinas como essa despertam os sentimentos de pertencimento e de coletivo.

Acesso – Sob o ângulo da economia da cultura, esse resgate pode contribuir para a revitalização de determinada região?

E. K. – Na verdade, a questão da memória como contribuinte para o desenvolvimento de um grupo é uma das mais discutidas no momento. Reflete-se sobre como fazer uma leitura de determinada comunidade que a leve a caminhos adequados. Percebemos que esse desenvolvimento econômico só se torna completo quando associado às questões humanas. Para isso, é preciso investir em educação cultural, em programas educativos de resgate da memória.

Acesso – Existem outros museus como o Museu da Pessoa no mundo?

E. K. – Hoje existem três núcleos internacionais do Museu da Pessoa, em Portugal, nos Estados Unidos e no Canadá, originados da ideia brasileira. Cada um deles tem sua especificidade e autonomia de ação, mas compartilham os mesmos conceitos.

Acesso – O que mudou nos quase 20 anos de atuação do Museu? E quais as perspectivas para o futuro de um museu construído com base em memórias pessoais?
E. K. – Vivemos uma mudança de concepção, na qual a memória passa a ser mais democrática. Um espaço de produção coletiva como o Museu da Pessoa mostra que as pessoas comuns também fazem parte da história como atores de um processo social. Há 20 anos, falar em história de vida soava estranho e enfrentamos o desafio de explicar a importância do registro de histórias de gente comum. Hoje, as novelas abordam histórias do cotidiano, os jornais exploram o tema, e a própria tecnologia permite, com os blogs e microblogs, que as pessoas contem fatos de suas vidas. Entre os desafios para os próximos anos, está a busca por outras leituras dessas memórias que ampliem o conhecimento. A cultura não deve ser encarada como uma relíquia guardada, até porque ela só existe se for transmitida.

Priscila Fernandes e Luíza Costa / blog Acesso

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