Arte como instrumento para produção de significados

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São diversas as vertentes pedagógicas que pregam o ensino da arte na escola, como um instrumento para a construção da subjetividade. Como primeiro canal formal de aprendizado, a escola deve prover aos alunos recursos para o desenvolvimento intelectual, psíquico, emocional, cultural e social. Este estímulo artístico atua, justamente, para a descoberta das diversas facetas do mundo – seja interno ou externo à criança –, para a exploração de potenciais latentes e para a estruturação de significados.

Na entrevista que você lê agora, a professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – USP e uma das autoras dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN na área de Artes, Rosa Iavelberg, ressalta, entre outros pontos, que o aprendizado da arte “favorece a participação social pelo viés das trocas simbólicas”. Leia a matéria na íntegra a seguir.

Acesso – Qual a importância da arte para a formação do ser humano, para sua percepção sobre o mundo?

Rosa Iavelberg – Aprender arte favorece a participação social pelo viés das trocas simbólicas. Para tanto, as formas de relação da aprendizagem em arte, nos diferentes contextos didáticos, devem implicar o aluno, mobilizá-lo e promover uma experiência com sentido para ele, que assim se reconhecerá nas práticas dos artistas e dos que participam do universo da arte. Quando aprende arte o aluno amplia suas possibilidades de compreensão do mundo na interlocução que faz com as poéticas (obras de diversos tempos e lugares), conhece-se mais e expande os modos de interação com os outros. Sabe-se que a interlocução poética é uma forma potente de compreensão das questões sociais e humanas.

Acesso – Por que o conceito de arte-educação sobrepujou a antiga nomenclatura “educação artística”? O que difere os dois termos?

R.I. – Podemos resumir respondendo que a diferença entre os termos está em consonância com concepções datadas da arte na educação escolar. A transformação refere-se, respectivamente, a proposições modernas e contemporâneas do ensino e da aprendizagem em arte. A escola ativa do começo do século 20 promoveu a livre expressão, que afetou nosso ensino de arte até os anos 80, quando nos novos paradigmas considerou-se o diálogo com a produção sócio-histórica da arte na aprendizagem.

Acesso – As escolas brasileiras estão prontas para trabalhar o conceito de arte?

R.I. – A maioria das escolas brasileiras não está pronta, mas pode ficar. Gosto de acreditar nisto.

Acesso – Como se dá a relação entre arte e cultura na escola?

R.I. – É recente a proposição curricular em arte, orientada à cultura visual, que inclui objetos de diversas mídias como conteúdos de estudo em arte na escola. Compreendo que estas orientações visam mais à transversalização de temas sociais da atualidade e seu estudo , por intermédio destas visualidades, do que ao ensino de arte. Nada tenho contra, contanto que se preserve tempo didático ao estudo da arte também. A formação cultural pode se dar mesmo fora da escola para todos, mas a formação cultivada carrega o princípio da equidade, do direito de acesso à arte e à produção cultural de qualidade artística e estética, sem hierarquizações, como direito do estudante no âmbito dos conceitos, procedimentos e valores ligados à arte.

Acesso – Qual o cenário da arte-educação no Brasil, hoje? Quem é o arte-educador brasileiro?

R.I. – Em cenário diversificado, encontramos professores que atuam nos moldes tradicionais com cópia de modelos, preenchimento de formas prontas e desenhos para colorir. Infelizmente, com referências estereotipadas e distantes do mundo da arte. Existem também professores que atuam no paradigma da livre expressão sem apresentar a produção sócio-histórica da arte e sem ensinar os procedimentos técnicos. Outro conjunto de professores acompanha as propostas contemporâneas, guiado em geral pelos PCNs do MEC, por documentos locais e, ainda, articula-se à Proposta Triangular, da Professora Ana Mae Barbosa, que associa o fazer, a leitura da arte e sua contextualização.

Acesso – Este último conjunto de professores citado consegue articular propostas pedagógicas tão diversas, convencionais e de vanguarda, com sucesso para o aprendizado da arte?

R.I. – Infelizmente, encontramos deformações em todas as escolhas dentro das três tendências pedagógicas tradicional, moderna e contemporânea, em muitas escolas. Nas diretrizes contemporâneas, por exemplo, entre outras deformações nas práticas, é constante a articulação interdisciplinar, com excesso de disciplinas por projeto na sala de aula, diminuindo e deformando os conteúdos da arte. Mas encontramos também, em número menos expressivo, o mais desejável: professores de sala de aula e arte-educadores que trabalham nas orientações contemporâneas com propriedade.

Acesso – Um professor não especializado em arte-educação pode causar danos ao processo de construção da subjetividade do aluno?

R.I. – Pode-se afirmar que um professor sem formação substantiva em arte- educação pode afetar os processos de criação artística dos alunos e a compreensão do significado da arte na sociedade e na vida dos indivíduos. A criação artística do aluno – hoje compreendida como manifestação singular do sujeito em diálogo com a produção de arte – requer espaço, tempo didático e orientação do professor para que o fazer e o compreender arte, nos quais o plano expressivo e construtivo do aluno operam em conjunto, possam ser vividos na escola. O achatamento de um percurso do fazer e saber arte decorre da má educação, que pode prejudicar a imagem que o estudante tem de si para aprender e criar.

Acesso – Como conectar crianças e jovens, que já nasceram na era das novas tecnologias, com a arte?
R.I. – As novas tecnologias também são parte do mundo da arte. Nas visitas escolares à Bienal de São Paulo deste ano, por exemplo, a maioria dos alunos carregava e usava máquinas fotográficas digitais ou celulares com câmera durante a leitura das obras.

Acesso – Que desafios o Brasil ainda tem a enfrentar para alcançar a excelência no ensino da arte-educação?

R.I. – Os desafios são os mesmos enfrentados nas demais áreas de conhecimento: promover a formação de professores; melhorar os salários da área de educação; realizar avaliação sistêmica das escolas, considerando a educação nos diferentes contextos, incluindo todos os fatores que interferem no sucesso ou no fracasso das aprendizagens.

Priscila Fernandes / blog Acesso

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