Meditação e Escalada em Alta Montanha

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As diversas atividades do nosso dia-a-dia nos mostram, em cada momento, os valores essenciais da vida. E por que não nos conectamos com isto? Porque não estamos presentes! Não estamos abertos à presença que é o único instante em que existimos.

E como em qualquer atividade, nós podemos expandir a nossa consciência para a percepção da onipresença, desde que estejamos abertos para isto e não adormecidos pela consciência individual, que isto fique bem claro! Escolhi relatar sobre a escalada em alta montanha, que para quem não conhece, são as escaladas relacionadas com a altitude, geralmente acima dos 4.000 metros em relação ao nível do mar. Quanto maior a altitude, mais rarefeito torna-se o ar, ou seja, menos oxigênio disponível. Portanto, maior será a dificuldade do organismo em absorvê-lo e isso acaba tornando a escalada exaustiva e difícil, colocando o indivíduo à prova de si mesmo. Para isso é necessário muito mais do que uma boa preparação física e um período de aclimatação repleto de muita paciência, persistência e perseverança. Na cadeia do Himalaia, lugar de esplendorosas e imponentes montanhas sagradas, o Monte Everest a 8.848 metros de altitude, considerado o topo do mundo, é o maior desafio dessa modalidade de escalada.

E para compreender a meditação precisamos saber como funciona a nossa mente. Meditar, em sua essência, “é apenas estar perceptivo a tudo o que acontece dentro e ao redor de nós” (Osho), mas, o que acontece dentro de nós? Já parou para pensar nisso? Em qualquer situação que você esteja agora, o que está pensando? Por onde vagam os seus pensamentos? Que emoções está sentindo? Turbilhões de pensamentos, vozes alimentadas por condicionamentos, desejos e emoções, tagarelam histórias passadas que já foram e projeções futuras, ilusões que, igualmente não existem no momento presente. E dessa maneira, milhões e milhões de indivíduos são levados pela mente mecânica, se identificam com ela e se tornam escravos de si mesmos perdendo a chance de descobrir a sua essência verdadeira e de serem felizes neste instante. A lição parece simples mais é essa simplicidade que se torna tão complicada para nós. É quando deixamos de ser a forma, os conceitos, a história e passamos a observar o desvelar da existência que experimentamos a verdadeira liberdade e simplesmente somos.

E foi no montanhismo que despertei para uma nova consciência. Percebi o momento presente em cada escalada e o tempo parecia não existir. Quando subia uma montanha, eu simplesmente era, simplesmente estava e simplesmente tinha tudo o que precisava naquele momento. “No presente, no único ponto do tempo em que podemos estar, somos tudo o que podemos ser – e temos tudo o que podemos ter” (Shimada). A partir deste primeiro contato tão intenso com a natureza e, com a minha própria natureza, fui em busca de compreensão. Comecei a praticar yoga, ter contato com o vedanta e, sobretudo com a meditação que me ensinam a cada instante enxergar a vida com plenitude.

E um momento de escalada que ficou muito marcado em meu consciente foi em alta montanha. Durante uma viagem a Bolívia para conhecer um outro país, uma outra cultura, outros tipos de escalada, pois até então só havia escalado em rocha e nunca em gelo e nem em alta montanha. Fomos até o Huayna Potosi, um pico de 6.088 metros de altitude localizado perto de La Paz, uma montanha muito majestosa e bela. Fazia um dia meio fechado quando chegamos ao primeiro acampamento, porém, o dia seguinte já estava maravilhoso. Fizemos alguns exercícios no gelo e no terceiro dia seguimos até o acampamento alto, a 5.130 metros de altitude, onde iríamos dormir e sair de madrugada para tentar o cume. Não consegui dormir direito, foi uma sensação muito estranha, mas me mantive calma e de dentro do meu saco de dormir olhava o tempo lá fora através das grandes janelas de vidro que havia no abrigo. E lá fora ventava muito! Senti a insignificância do meu ser e de todos que estavam comigo naquele momento. Pensava: o que estamos fazendo aqui? E isso sempre passa pela cabeça quando estamos fora da nossa zona de conforto. Mas estava concentrada no meu objetivo, que não era de chegar ao cume, isso seria uma conseqüência, o objetivo maior era aproveitar ao máximo aquela escalada e aquele momento. Para isso precisava acalmar as vozes na minha cabeça que estavam indignadas com a situação, mas no fundo elas sabiam o quanto àquela experiência era importante.

Eram 2 horas da manhã, hora de levantar e se arrumar para sair às 3 horas. O vento continuava uivando. Comemos um pouco, ou melhor, forcei comer alguma coisa porque não sentia fome. Todos prontos, lanterna na cabeça, mochila nas costas, piqueta na mão e vamos sair em direção à base da montanha, que é pertinho do acampamento alto. E assim que abrimos a porta para sair, pareceu mágica, o vento parou, aliás, acho que pareceu mais umas boas vindas da montanha recebendo a todos nós. Mais confiante, segui escalando e logo nos primeiros passos, atendi ao preceito de yama abstendo-me de qualquer ação, palavra e pensamento não construtivo. Respeitando aquele ambiente em que estava e observando pureza e integridade de ação, palavra e pensamento, cumpria niyama. As vozes em alguns momentos pareciam gritar e queriam me tirar do foco. O meu corpo já se movia sozinho, disciplinado, como em um firme asana. A respiração, assim como cada passo, tinha que ser controlada como um pranayama. Tentando gerenciar as emoções e sensações, segui escalando em puro pratiahara (controle dos sentidos). E mantendo o foco estava em dharana, a concentração. Ao me sentir uma com a montanha estava em dhyana, meditação. É uma atividade intensa, a subida levou mais ou menos, se me recordo bem, umas 9 horas, e a alimentação é muito precária, mas é por falta de apetite e não por falta de guloseimas guardadas na mochila. Tudo que fazemos na altitude demanda muita energia e acredite se quiser, até comer é um grande esforço.


E chegando ao cume, a sensação mais importante deste relato, o motivo que me fez escrever tudo isto. Eu sentei e ao olhar em volta tive poucos minutos, talvez segundos, mas aquilo era tudo e ao mesmo tempo nada, a contemplação – samadhi – o silêncio harmonioso, impossível de mensurar em palavras, porque as palavras limitariam a grandeza daquele momento.

E assim, logo depois deste estado de graça, brota no vazio um primeiro pensamento: e agora? Ele mesmo respondeu: É só descer. Comecei a rir de mim mesma era tanta alegria que nem acreditava que estava ali, parecia um sonho do qual não queria acordar tão cedo. Somos interligados com o universo, por algo muito maior, tudo está interconectado e sozinho não fazemos nada. Pude sentir nitidamente tudo isso ao chegar aonde cheguei naquele dia. E a descida foi gratificante e contemplativa.

Ao chegar à cidade, olhava para tudo com outros olhos. Observava as pessoas nas ruas, os carros, os prédios e as casas, toda aquela situação de vida em que muitas vezes acreditamos ser a única maneira de viver. Chegando ao hotel, tinha banho quente, banheiro, comida, cama macia, tudo a qualquer hora e com direito a um ambiente climatizado, com ar quente, sem passar frio. Eu observava tudo aquilo com profunda gratidão por cada instante, por cada sensação e pela oportunidade de estar ali, inteira, aproveitando o que nos é mais valioso, o momento presente!

Mas não é preciso escalar uma montanha para viver com plenitude, aliás, o nosso maior desafio é manter essa consciência, é trazer para as tarefas mais simples do dia-a-dia essa lição, é aceitar com humildade a condição de aprendizes e se entregar com gratidão a manifestação divina.
E que a essência que há em mim possa sempre saudar e também reconhecer a essência presente em você. Namastê!

Jus Prado é professora de Hatha Yoga em Campinas e montanhista.

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