Florianópolis possui um dos mais ricos acervos rupestres do mundo, ainda pouco explorado.

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Em diferentes lugares do mundo, existem monumentos megalíticos (conjunto de construções de grandes blocos de pedras, típicas das sociedades pré-históricas) construidos por nossos antepassados para observar os movimentos dos astros. O mais famoso deles é um círculo de pedras, erguido há quatro mil anos, localizado em Stonehenge, na Grã-Bretanha. Aqui, no Leste da Ilha, existe o observatorio Arqueostronômico da praia da Galheta, um dos mais importante de Santa Catarina, mas ainda pouco conhecido pelos moradores da região.

O poder público não investiu para preservar e investigar mais sobre este assunto, ficando este importantissimo tema em mãos de pessoas da comunidade que, com seu trabalho e sua dedicação, levaram este tema ao conhecimento de muita pessoas de diferentes lugares do mundo. O primeiro registro de pedras colocadas de “maneira estranha” foi o do biólogo Vieira da Rosa, por volta de 1918, quando ele fez referência a algumas formações rochosas peculiares no litoral catarinense. Já na década dos 80, o morador da Barra da Lagoa, Adnir Ramos, conhecido como Maninho, percebeu que algumas das formações rochosas e grandes pedras localizadas no Morro da Galheta coincidiam com o nascer do Sol e da Lua em épocas específicas do ano.

Um dos fenômenos foi a observação do nascer do Sol no solstício de inverno, na Pedra do Frade, costão da Barra da Lagoa. Maninho ficou tão intrigado que decidiu entrar na universidade para estudá-las “Um dia, sentado no terreno atrás da minha casa, na Fortaleza da Barra da Lagoa, observei a lua nascer exatamente entre duas pedras. Comecei então a procurar uma plataforma de onde pudesse ver o sol nascer sobre ou entre algumas delas. Até que descobri que a pedra que servia para os povos ancestrais como ponto de observação estava localizada simplesmente no quintal da minha casa”, explicou Maninho. Maninho formou se como antropólogo e começou a defender a hipótese da existência de pedras com função astronômica na região. “Os primeiros povos a habitar a região litorânea utilizavam grandes blocos de pedra, posicionados no topo de morros, à beira-mar, como um imenso calendário astronômico a céu aberto,” explicou ele.

Os índios e pré-índios usavam esse calendário para uma série de atividades cotidianas, como a pesca, a caça, as colheitas e também para o próprio ciclo de fertilidade humana, já que, se a mulher fosse fecundada no verão, o filho nasceria na primavera, época em que as temperaturas mais elevadas, as flores, para o mel, os ovos e outros víveres davam ao recém-nascido uma chance maior de sobrevivência. “O mistério da ilha está nas pedras, a magia da ilha está nessas pedras e nas inscrições. Santa Catarina é um dos estados mais ricos em energia telúrica, nosso estado é o lugar que teve mais curas até hoje em termos de milagres, o primeiro lugar do Brasil a ter uma santa (Madre Paulina), e isso é porque essas energias proporcionam a cura das pessoas.

Por exemplo, lá em Gravatal, existe a gruta da Nossa Senhora da Saúde, na comunidade de São Miguel, onde existe um grande dólmem e um menir onde as pessoas vão para se curar, “ explicou Maninho.  “Com o turismo arqueastronômico todos ganham” Para Adnir Ramos, é uma boa oportunidade para todos, pois este tipo de turismo não ocorre apenas no verão, mas no ano todo, assim as pousadas, hotéis, restaurantes, os donos de casas comerciais ganhariam. Santa Catarina é um dos lugares onde existe maior concentração de monumentos megalíticos da America do Sul. Em qual direção estão orientados esses monumentos? Os monumentos estão alinhados com a constelação de Touro, no trópico de Cancer, onde o sol passa no inverno, constelação de Orion o sol passa no outono e na primavera Cão Maior trópico de capricórnos onde o limite do sol no hemisfério sul (solstício de Verão).

Órion desempenhou um papel importante para as civilizações antigas. Sua posição no céu, ao longo do ano, era um prenúncio das mudanças climáticas que estavam por vir. Quando se observava Órion nascer durante o amanhecer, era um sinal de que o inverno havia chegado. Seu nascimento no início da noite anunciava o verão. Qual é a posição do meio acadêmico em relação a este tema? O meio acadêmico está fechado. Uma vez, no ano passado, pedi autorização ao IPHAM para fazer cópias das gravuras rupestres em tamanho natural para a nossa exposição itinerante de arqueoastronomia, mas os técnicos negaram, alegando que não existem monumentos megalíticos em Santa Catarina. É uma briga muito grande, porque as pedras que existem, por exemplo, na ilha do Campeche, são enormes, desafiam a tecnologia do passado, fica complicado dizer que o homem do sambaqui colocou aquelas pedras, pois teria que ter muita força, muita gente, para colocar na posição em que elas estão.

O enigma é muito grande, e como a ciência não consegue desvendar isso, eles se fecham e negam tudo. Quem perde com isso é a comunidade, pois até a decáda de 60, os Sambaquis também não eram aceitos pelos técnicos da arqueologia, e enquanto isso, os mineradores retiravam as conchas e ossadas humanas para transformá-las em cal para a construção civil ou para pavimento de estradas. Com isso, perdemos mais de 90% do mais rico acervo de Sambaquis do mundo, inclusive os mais altos, que chegavam a 120 metros de altura, com era o caso do Sambaqui da Carniça, em Laguna. Recebeste apoio do poder público para as pesquisas? Recebi um apoio bem interessante, na época do governo de Ângela Amim, ela foi a primeira pessoa a se interessar, inclusive, ela tentou implantar o parque arqueastronômico. No governo dela, fez-se um levantamento dos monumentos da Barra (pedra do Frade), da Fortaleza (plataforma) e da Ponta do Gravatá.

Neste levantamento, trabalharam muitos estagiários, mas depois da mudança do governo, o governo atual não deu seqüência a este trabalho de arqueastonomia. Há pouco tempo, houve um apoio do fundo de turismo do governo do estado. Qual é a finalidade do Mutirão do dia 7 de agosto para a retirada dos pinus no morro da Galheta? O Mutirão Ecológico na Fortaleza da Barra da Lagoa tem como finalidade efetuar a restauração da Mata Pluvial da Encosta Atlântica (Floresta Ombrófila Densa) presente nas encostas do Morro da Galheta. Existe uma preocupação grande pela invasão do morro pelo pinus ou pinheiro-americano (Pinus spp.). Estas árvores estão detonando o morro, se não agirmos agora, vai ser muito difícil, no futuro, recuperar os morros desta região.

Que potencial tem o turismo arqueastronômico nesta região? Muito grande, mas para podermos trabalhar com turistas, devemos melhorar as trilhas, os acessos, a sinalização. Já no ano de 1996, Keller Lucas recomendou trilhas adequadas antes de levar turistas para visitar os locais. Primeiro, é preciso melhorar as trilhas, falta sinalização para que o turista possa visitá-las, como, por exemplo, a trilha da Barra – Galheta; Fortaleza-Galheta; a da pedra de Frade; da praia Mole. Precisamos fazer infra-estrutura primeiro, também necessitamos de guias. Que setor se beneficiaria com este tipo de turismo? Com o turismo arqueastronômico todos ganham, pois ele não ocorre apenas no verão, este tipo de turismo acontece o ano todo, e as pousadas, os hotéis, os restaurantes, os donos de casas comerciais ganhariam. É uma fonte de renda que estamos perdendo por falta de divulgação e infra-estrutura. Eu ajudei Keler com o projeto de criar o parque arqueastronômico da Galheta.

Publicado IMMA – EcoMap e apoio Jornal Leste da Ilha,  Associação Ilha dos Palmares, Vereador Renato Geske, Conselho Comunitário da Barra da Lagoa, ONG Comuna Visual  e o Fórum da Barra.

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