Conheça um pouco da história dos fascinantes muros construídos com pedras

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LONDRES – Tudo começou com as vacas fugitivas. Quando a fotógrafa Mariana Cook e sua família retornaram para casa, na ilha Martha’s Vineyard, em uma tarde, encontraram mais de 50 vacas pastando em sua grama. Parte das pedras do muro que separava a propriedade de um vizinho havia caído, e as vacas invadiram.

O muro fora construído de modo tradicional, pelo encaixe de pedras que eram cuidadosamente selecionadas em termos de forma, textura e peso, para permanecer no lugar com segurança, em uma estrutura autoportante. Ele estava lá desde que Cook podia se lembrar, mas só quando ela o examinou com o vizinho, o dono das vacas, que percebeu o quão intrigante era, estrutural e esteticamente. Ela começou a tirar fotos de muros em diferentes estações do ano e embarcou em um projeto de oito anos de fotografar outros muros de pedra seca ao redor do mundo.

As fotos foram publicadas em um livro, “Stone Walls: Personal Boundaries” (Muros de Pedra: Limites Pessoais, em uma tradução livre), junto com ensaios de fazendeiros, historiadores e de um arqueólogo sobre a história de muros de pedra seca em diferentes países. Além de revelar a beleza e longevidade dos muros, o livro conta uma história extraordinária sobre design.

Não “rouba” do meio e se torna um habitat
Robusto, duradouro e ambientalmente plausível, um muro de pedra seca é um exemplo fascinante da engenhosidade no design e da possibilidade de fazer com que algo seja útil a partir de objetos encontrados e geralmente ignorados ou descartados. Um muro bem feito pode durar mais de um século e exige menos manutenção que uma cerca viva ou uma grade. É feito somente com materiais encontrados e não retira nenhum nutriente do solo que o cerca, enquanto fornece abrigo para coelhos, ratos e outros tipos de vida selvagem. Insetos se desenvolvem entre as pedras, assim como líquen e musgo. Um muro de pedra seca é também modelo do conceito modernista do design, segundo o qual “a forma segue a função”. Sua beleza é geralmente uma questão de coincidência, porque toda decisão de design tomada durante a construção é determinada pela eficiência.

Muros de pedra seca vêm sendo construídos há milhares de anos, desde o início da Era Neolítica em 7000 AC, quando as primeiras comunidades agrícolas surgiram na Grécia. Foi então que aquelas pessoas começaram a complementar a comida que encontravam caçando com o cultivo de suas próprias plantas e criação de animais. Eles precisavam encontrar meios de fechar as terras para identificá-las como suas, prevenir que os animais desgarrassem e que sua colheita fosse roubada. Construir uma barreira física era uma solução óbvia, e em muitos lugares, o único material de construção disponível prontamente eram as pedras.

Outras inovações neolíticas foram guiadas pelo mesmo princípio que diz que “a necessidade é a mãe da invenção”, mas a maioria foi substituída ao longo dos séculos, à medida que novos materiais e técnicas de produção emergiam. O muro de pedra seca é uma exceção. Mesmo hoje ele é construído quase que exatamente do mesmo jeito que há nove mil anos. Como os muros, os princípios subjacentes do design sobreviveram porque ainda funcionam.

Ollantaytambo, Peru. Os muros, que foram construídos por milhares de anos, subscrevem-se à concepção da velha escola Modernista segundo a qual a “forma segue a função”

Sistema usado há gerações
Os muros mais antigos fotografados por Cook pertencem ao Templo Hagar Qim, construído em Malta entre 3.600 e 3.200 AC, muito antes de Stonehenge, e é hoje um dos locais religiosos mais antigos do mundo. Entre os outros estão os muros do século 15 dos Incas, no Peru, cujas imensas pedras eram combinadas tão meticulosamente que os primeiros colonizadores espanhóis as descreveram como “maravilhas técnicas” em seus relatos quando de volta à Espanha.

A maioria dos muros do livro são “muros de trabalho”, originalmente construídos por -ou para- fazendeiros em terrenos rochosos na Inglaterra, Escócia, Irlanda, França, Estados Unidos e ilhas mediterrâneas como Malta e Sicília. Todos foram construídos por motivos semelhantes, geralmente porque os fazendeiros precisavam cercar suas terras e não tinham outros materiais para tal, ou porque queriam remover pedras indesejadas para cultivar o solo. Não é coincidência que os muros de pedra seca costumam ser construídos em terrenos rochosos, onde as árvores são escassas e o clima extremo: sol escaldante na bacia do Mediterrâneo, ventos gelados e chuva nos montes do norte da Inglaterra e nas ilhas das costas escocesa e irlandesa.


Construtores de muros de pedra seca podem hoje aprender o ofício em cursos, mas a maioria dos muros mais antigos foi construída por instinto, às vezes com a ajuda de dicas passadas no boca a boca. Até hoje muitos desses muros exibem um trabalho de habilidade e originalidade considerável. Os muros de calcário na ilha irlandesa de Inis Meain são diferentes em sua expressão, com diferentes formas e tamanhos de pedras posicionadas para criar padrões primorosos. Elementos úteis foram sendo acrescentados aos muros aqui e ali, tal como passagens para ovelhas e degraus que as pessoas poderiam usar para pular para o outro lado.

Detalhe de muro fotografado por Mariana Cook nas ilhas Shetland em 3 de julho de 2007

“Muros dos escravos”
“Muros de trabalho” também evocam sua localização. Eles costumam ser construídos com pedras encontradas ao seu redor, e sempre refletem a história local. Às vezes a história pode ser bem feia. Os muros de pedra seca no Kentucky são chamados de “muros dos escravos” porque muitos foram construídos pelos escravos afro-americanos que trabalhavam nas fazendas. Minhas memórias de infância dos muros pitorescos de pedra seca ao redor de uma vila remota em Yorkshire Dales ruíram quando descobri que partes deles também havia sido construída por escravos. Um barão do açúcar jamaicano levou-os para a Inglaterra no século 18 e os mandava morro acima para construir muros durante semanas, e com o mínimo de provisões. Muitos escravos morreram ali.

Felizmente, muitos “muros de trabalho” têm boas histórias para contar. Um de seus encantos é o que nos contam sobre as esperanças e expectativas das pessoas que os construíam. Construir um muro de pedra seca exige mais tempo e habilidade que outras formas de cercar propriedades, mas é garantido que o resultado é mais duradouro. Cada muro representa um investimento humano no futuro, como um esforço heróico para a construção de algo que vai definir a paisagem e proteger a propriedade durante gerações.

Por UOL/Alice Rowsthorn /Tradutor: Érika Brandão

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